Em vez de estátua deposta, livro reposto: nova edição do Sermão de Santo António aos Peixes

Nova edição da obra maior do Padre António Vieira é disponibilizada após a estátua do autor em Lisboa ter sido vandalizada no início de junho.

Uma nova edição do Sermão de Santo António aos Peixes da editora Guerra & Paz chega às livrarias esta terça-feira.

A obra estava pronta a ser reeditada há algum tempo e a editora aguardava a melhor altura para lançar a reposição do livro. A mais recente polémica, ligada à vandalização da estátua do Padre António Vieira em Lisboa, acabou por ser o empurrão final para disponibilizar a publicação aos portugueses.

"Pareceu-nos o momento certo. Não de uma forma oportunística por causa desta situação específica mas em nada nos custa, até como resposta, até pela injustiça da própria situação, pareceu-nos muito bem que o livro saísse agora", explicou o editor Manuel Fonseca.

O fundador e proprietário da editora Guerra & Paz destaca a riqueza linguística da obra e considera que o livro, escrito há mais de três séculos, revela que o Padre António Vieira era uma figura muito avançada relativamente ao seu tempo.

"É uma figura do século XVII, num quadro mental que não era o nosso. O paradigma de pensamento, os conceitos utilizados, os instrumentos para se pensar eram diferentes daqueles que nós temos hoje. Este livro é um livro de alguém que está muito à frente do seu tempo e com muitas pontes para aquilo que é o nosso tempo", explica.

Manuel Fonseca defende que, "se não tivesse havido figuras com esta capacidade de pensamento, provavelmente, nós, no ocidente, não teríamos evoluído ao ponto de pensar que, de facto, todos os homens são iguais".

O sermão foi apresentado pelo próprio Padre António Vieira a 13 de junho de 1654, em S. Luís do Maranhão, no Brasil, país onde viveu a maior parte da vida.

No início de junho, a estátua do Padre António Vieira, no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, foi vandalizada com a palavra "descoloniza" pintada a vermelho. A Câmara de Lisboa rapidamente procedeu à limpeza da estátua, condenando "todos os atos de vandalismo contra o património coletivo da cidade".

Manuel Fonseca lamenta a situação e considera que o ato de vandalismo não tem fundamentação que o legitime.

"Não tem expressão real, social que esteja por trás dela. As atitudes de vandalismo são formas ideológicas muito primárias e maniqueístas. Percebe-se mal para onde é que querem ir, a não ser numa culpabilização, que me parece arbitrária, de um eventual homem branco - seja lá o que isso for", defendeu.

A publicação faz parte da coleção de clássicos da editora Guerra & Paz. O texto foi atualizado para a ortografia contemporânea, pelas mãos de Ana Castro Salgado.

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