"Luz a D. Manuel." Jerónimos iluminam desenhos do séc. XVI "escondidos" nas paredes do mosteiro

O Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, ilumina-se, para assinalar os 500 anos da morte de D. Manuel I. Além dos desenhos do mestre João de Castilho, fica em exposição uma armadura do rei, haverá uma missa evocativa e um concerto de música do Renascimento.

O Mosteiro dos Jerónimos tem, esta segunda-feira, uma luz especial. São os 500 anos da morte do rei que o mandou construir, D. Manuel I, e celebra-se o legado que o monarca deixou. "Luz a D. Manuel" é o nome do evento que, explica Dalila Rodrigues, a diretora do Mosteiro dos Jerónimos, vem trazer à luz desenhos originais do século XVI, da autoria de João de Castilho -- o maior arquiteto em Portugal e um dos grandes da Europa, no Renascimento -- que estavam escondidos nas paredes do monumento.

"Este grande arquiteto, João de Castilho, dirigiu as obras e utilizou uma das paredes interiores para desenhar elementos do próprio edifício que existem ou que já desapareceram. E, portanto, esses desenhos incisos estão ali e nunca viram luz", relata Dalila Rodrigues. Agora, vão, finalmente, "ser iluminados". "Este "Luz a D. Manuel" passa por esse registo, por essa instância mais criativa do desenho de arquitetura."

Além dos desenhos, quem visita o mosteiro pode também, a partir desta tarde, ver uma armadura que terá pertencido ao próprio D. Manuel I e que veio de propósito de França para esta celebração dos 500 anos do legado do rei.

"A peça é datada de 1510 a 1515 e foi feita por um armeiro milanês, Nicolau Silva, que esteve ativo entre 1511 e 1549. Tem gravadas as esferas armilares, ou seja, o símbolo único e inconfundível de D. Manuel. É, na verdade, um conjunto de peças que se articulam, se compõem e recompõem para atividades que podem ser desde o combate de campo à participação nas lides cavalheirescas, como torneios e jogos militares", explica a diretora do Mosteiro dos Jerónimos. "É uma peça absolutamente fantástica porque evoca a presença de alguém, é uma espécie de fantasmagoria."

Mas por que razão estava uma peça tão importante, pertencente a um rei português, em França? "O Musée de l'Armée, instalado no Hôtel National des Invalides, em Paris, adquiriu-a através de um grande colecionador particular, e as grandes coleções particulares são o resultado de muitas vicissitudes...", admite Dalila Rodrigues, também historiadora de arte.

"Os motivos para a armadura ter saído de Portugal, enquanto possibilidades, diria que são fundamentalmente três: pode ter sido levada no Período Filipino (como se supõe que tenham sido levadas, por exemplo, as célebres Tapeçarias de Pastrana, que estão em Guadalajara e que relatam os feitos das conquistas no Norte de África, pelo rei D. Afonso V, que as encomendou); pode ser o resultado das depredações ocorridas nas invasões francesas (os grandes tesouros artísticos do Mosteiro dos Jerónimos, como a custódia de Belém ou a Bíblia dos Jerónimos, por exemplo, foram levados por Junot); ou, no rescaldo das guerras liberais, quando foi vendida muita armaria considerada obsoleta, pode também ter ido num lote qualquer, considerando-se que era uma peça em desuso", explica.

A peça, agora emprestada ao Mosteiro dos Jerónimos pelo Musée de l'Armée, vai estar "exposta, com grande aparato, na Sala do Capítulo [do Mosteiro dos Jerónimos] até ao dia 19 de abril", adianta a diretora do mosteiro.

Nesta "Luz a D. Manuel" está ainda programado, para esta quinta-feira, um espetáculo de video mapping, concebido pela Escola Superior de Educação de Viseu, e a partir das 17h30, uma missa evocativa, celebrada pelo cardial patriarca de Lisboa e pelo prior dos Jerónimos.

A noite fecha com um concerto de música do Renascimento, às 21h00. "Há também uma luz que tem uma dimensão mais simbólica e, por isso, temos o concerto", indica Dalila Rodrigues. "Tive o gosto de convidar o diretor artístico Massimo Mazzeo para conceber e dirigir este concerto, que se divide em três momentos": a interpretação da soprano Maria Christina Khier, acompanhada por Ariel Abramovich, seguida pelo Bando do Surunyo, e, por fim, o Nova Era Vocal Ensemble.

Mas as celebrações dos cinco séculos do legado de D. Manuel I -- que só foram possíveis graças ao apoio de mecenas -- não se ficam por aqui: vão estender-se ao longo de um ano, a começar com um colóquio sobre o futuro dos Jerónimos e da Torre de Belém, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, a 18 de abril. Além disso, também o cineasta Ivan Dias está a realizar um filme intitulado Luz a D. Manuel.

Mas o ponto alto, adianta Dalila Rodrigues, vai mesmo ser a 10 de junho, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, com a herança do músico Carlos Paredes em destaque.

"Carlos Paredes, que Amália Rodrigues considerava o "Mosteiros dos Jerónimos da Guitarra Portuguesa", legou ao Mosteiro dos Jerónimos duas das suas guitarras, uma das quais pertencia ao pai. Elas já foram restauradas... Não vou dizer mais nada!", revela, entre risos, a diretora. "Vai ser uma surpresa, o país vai gostar muito!", garante.

Por fim, como além do Mosteiro dos Jerónimos, outro grande monumento foi fundado por D. Manuel I, as celebrações irão terminar, dentro de um ano, a 13 de dezembro de 2022, com uma cerimónia nesse segundo monumento, que é a Torre de Belém.

Para esta segunda-feira, a entrada no evento é gratuita. Quem quiser assistir à missão não precisa de fazer reserva, mas para estar presente no concerto e na exposição é necessária marcação. Basta enviar um email para geral@mjeronimos.dgpc.pt, e, se ainda houver disponibilidade, a resposta será positiva.

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