"Matar o tempo" dentro duma prisão. As artes moldam Espíritos Livres no EP da Guarda

As sessões começaram em outubro e o espetáculo ganha asas para sair da prisão. Há cinco meses que Ana Gil e Óscar Silva orientam as sessões do projeto artístico Espíritos Livres, para o qual foram desafiados pelo Estabelecimento Prisional. Os dois criadores falam de uma "experiência íntima", que entrou nas suas vidas dando outro tempo ao tempo.

Tudo se transforma no espaço duma prisão. As artes performativas são o motor deste projeto que, através da criação artística, trabalha competências dentro da cadeia para alimentar os dias dos reclusos e reclusas, que estão lá dentro, mas hão de voltar cá para fora. "Lá dentro e cá fora", são já expressões que Ana Gil e Óscar Silva enfrentam hoje com outros cuidados, porque matar o tempo lá dentro e cá fora, não tem o mesmo impacto: "Quanto tempo falta para saírem ou há quanto tempo ali estão, é um choque porque o tempo ali dentro vive-se de forma completamente diferente. Para nós tem sido uma aprendizagem."

A ideia de matar o tempo molda o espetáculo que vai ter em palco 14 reclusos e reclusas "se ninguém desistir até lá", sublinha Ana Gil, lembrando que o projeto arrancou com cerca do dobro de participações, que optaram por não continuar. No caso das reclusas, as sessões são quinzenais, por ser a primeira vez que integram um projeto desta natureza. Com os reclusos já houve outras experiências e as sessões são semanais.

O nível de instrução é um outro filtro: "Eles e elas partem de lugares diferentes. Há senhoras com um nível de literacia mais baixo, e as propostas de trabalho têm de ser adaptadas. A maioria dos homens já terminou o ensino secundário e há um que frequenta a universidade". Percursos e lugares diferentes, que as moldam abordagens, no contacto com as artes, teatro, poesia, música, dança e fotografia.

Os dois criadores e intérpretes da Terceira Pessoa, estrutura com sede em Castelo Branco, nunca tinham trabalhado em contexto prisional, falando deste projeto como "uma experiência íntima". Julho é a data marcada para o espetáculo, no Teatro Municipal da Guarda, e em setembro estreia um filme documentário, da autoria de Tiago Moura. Há ainda uma conferência final, organizada pelo Estabelecimento Prisional, refletindo sobre o lugar da arte em contexto prisional, num projeto que é monitorizado pelo Instituto Piaget de Viseu, já a pensar na reinserção social, e apoiado pela DGArtes.

"O homem que matou o tempo" é ainda um nome provisório, mas o tempo há de fazer-se ao caminho.

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