"O Século" inovou e deixou saudades. Jornal foi lançado há 141 anos
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"O Século" inovou e deixou saudades. Jornal foi lançado há 141 anos

A TSF foi escutar as histórias de quem viveu o dia-a-dia na redação e de quem ainda hoje estuda aquele que foi um dos maiores jornais de Portugal. Esteve no ativo durante 99 anos.

A 4 de janeiro de 1881, foi lançado um dos maiores diários de Portugal: O Século. A publicação esteve no ativo até 1979, data em que fechou portas devido a problemas financeiros, já depois de ter sido nacionalizada no pós-25 de Abril.

Passados 141 anos do seu lançamento, a TSF conversou com Mário Zambujal, que foi chefe de redação d'"O Século", não só durante a revolução de abril, como também depois no chamado PREC (Período Revolucionário em Curso).

O escritor e jornalista lembra o momento em que depois do 25 de Abril convocou uma reunião para dizer: "Neste jornal, como em todos os jornais, as pessoas que ocupam o cargo de chefias foram nomeadas pelas administrações e eu não sou exceção. Se eu bem entendo os novos ares deste país, se bem entendo o clima novo em que respiramos, vamos fazer uma coisa que é inédita. A redação é que vai eleger o chefe de redação. Eu neste momento prescindo deste lugar e vamos todos votar." Conta depois que foi eleito por unanimidade e aclamação.

Mário Zambujal confessa que o tempo do PREC foi dos períodos mais difíceis, até pela divergência de opiniões e de lutas que havia na redação.

O jornalista afirma que quando passa junto ao edifício da antiga sede do jornal, hoje sede do Ministério do Ambiente, sente saudade das "grandes jornadas que e das grandes pessoas" que conheceu.

"O Século foi um jornal bastante inovador"

Para a investigadora de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Júlia Leitão de Barros, O Século tinha uma "característica interessante", pela ligação que tinha ao "republicanismo federalista" e de ter estado ligado à "democratização política em Portugal" na década de 80 do século XIX, época em que Portugal ainda vivia numa monarquia.

A investigadora considera que O Século foi inovador e deixou marca no jornalismo português, quando o "republicanismo" ficou a cargo de outras publicações. A partir daí, acrescenta, os aspetos sociais foram alvo de maior cobertura, algo que estava praticamente ausente até então. Júlia Leitão de Barros recua mesmo até 1907 para recordar que o jornal fez várias reportagens "sobre a forma como se vivia miseravelmente em algumas zonas da cidade de Lisboa".

Júlia Leitão de Barros realça ainda as notícias que cobriam todo o país, até pela quantidade de correspondentes que o jornal tinha. As informações obtidas por esses "informadores" sofreriam depois um revés aquando do Estado Novo, pela intervenção da censura e da PIDE.

"Introduz também muita reportagem de assuntos de interesse humano e crimes. Foi o primeiro jornal em 1905 a utilizar com regularidade a fotogravura. A importância da imagem. Aposta na autopromoção, o DN dava brindes, o Século abre a perspetiva de criar concursos para quem comprava o jornal, que dinamizam a vida urbana, cultural da sociedade de Lisboa. O Século é um jornal inovador", afirma

Depois de vários problemas financeiros durante o século XX, o jornal fecharia portas em 1979, já depois de nacionalizado.

Não sabendo quando, Mário Zambujal tem a esperança de que um dia "O Século" possa voltar ao ativo e dá o exemplo do Diário de Notícias, que voltou recentemente ao papel. "Tem coisas interessantes," sublinha o antigo chefe de redação do jornal.

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