Exposição sobre propaganda nas eleições presidenciais norte-americanas, no ISCTE
exposição

Patos, camelos, girassóis e mãozinhas. Uma história da propaganda nas eleições dos EUA

A "Propaganda Nas Eleições Presidenciais dos EUA" pode ser visitada até dia 20 de novembro junto ao grande auditório do ISCTE, em Lisboa. Mostra percorre todo o espetro político norte-americano desde o início do séc. XX.

"Nos Estados Unidos, mantém-se a velha regra de que onde há três trotskistas, há dois grupos. Portanto, deve haver lá pelo menos duas dezenas de adeptos" do revolucionário profissional. Pacheco Pereira justifica assim a abundância de panfletos de extrema-esquerda enquanto vai guiando a visita pela propaganda nas Presidenciais norte-americanas. O historiador e comissário da exposição explica que" algumas pessoas ficam muito admiradas por haver tantos comunistas norte-americanos", mas conta que até foi um que o ajudou a contar a vida de um histórico português.

Morris Childs, "que é o único tipo que tem uma medalha da CIA e outra da União Soviética", era um líder marxista e infiltrado do FBI. Foram os relatórios do informador americano que permitiram a Pacheco Pereira ler "detalhadamente as intervenções do Álvaro Cunhal nas reuniões da Internacional Comunista", conta o biógrafo do antigo secretário-geral do PCP.

Mas voltemos ao ISCTE e à mostra que percorre todo o espetro político norte-americano desde o início do séc. XX, que é para isso que aqui estamos. A vitrina com camelos identifica ao Prohibition Party. Porque o programa deste partido, nascido em 1869, "centra-se no combate ao álcool e na defesa da lei seca", explica o historiador.

A improvável combinação entre Bakunine e os liberais da Escola económica de Chicago está patente no espaço dedicado ao Partido Libertário. "Não têm paralelo na Europa, talvez os ideólogos da Iniciativa Liberal devessem olhar para este exemplo com mais atenção", sugere.

No entanto não é só de pequenos partidos, que nos Estados Unidos são designados por Third Parties (terceiros partidos) que é feita a exposição. Da candidatura do republicano Alfred Landon, em 1936, passando pela corrida que levou o democrata Barack Obama à Casa Branca, em 2008, são as campanhas dos dois grandes partidos americanos que ocupam mais espaço na sala.

O cowboy vai nu

Ainda assim, a recolha é variada e permite, nas palavras do investigador, "compreender não só a diversidade do panorama político americano, mas também a diferenciação. Por exemplo, se olharmos para a última campanha, conseguimos ver que a campanha de Hillary Clinton era muito mais identitária: dirigia-se aos índios, aos latinos, aos veteranos, etc. Trump, comunicava com todos os americanos em simultâneo".

"O grande sucesso da exposição", segundo Pacheco Pereira, é um poster em tamanho quase real do Naked Cowboy, um dos ícones da cidade de Nova Iorque, feito a partir de uma foto que ele mesmo tirou à porta da torre Trump. O investigador lembra-se bem desse dia: "Quando saí do edifício, estava lá uma grande algazarra, porque os seguranças queriam que ele saísse. Os transeuntes juntaram-se para protestar e ele acabou por ficar." Quem também estava presente era uma equipa de reportagem da RTP. "Naturalmente não estavam lá por minha causa, mas iam caindo para o lado quando me viram", conta divertido.

Aproveitando para salientar que a exibição, composta totalmente de artigos originais, é apenas uma ínfima parte da coleção americana da associação Ephemera, o comissário assegura que, "se quiséssemos fazer um trabalho idêntico sobre as campanhas iranianas ou indianas também temos lá no armazém peças suficientes. Algumas coisas recolhemos nós, outras são doações de privados, de pessoas que visitam os países, mas também temos acordos com instituições estrangeiras", acrescenta.

No período do movimento dos direitos civis, em 1968, ganhou força uma campanha segregacionista liderada por George Wallace Jr. O antigo governador do Alabama perdeu para Richard Nixon, que depois de derrotado por Kennedy em 1960, acabou por ser eleito oito anos mais tarde e reeleito em 1972. As candidaturas do Presidente que se afundou no escândalo Watergate também estão representadas no ISCTE.

Mãozinhas de sabão

Apesar de, em 2016, a campanha de Donald Trump ter utilizado vários, são poucos os autocolantes em exibição. O investigador explica porquê: "As campanhas são também um reflexo da vida dos países é por isso que, ao contrário do que acontece na Europa, em vez dos autocolantes há os Bumperstickers, que se colocam nos carros. Obviamente que, numa sociedade em que o automóvel é tão importante, fazer autocolantes para os carros tem todo o sentido. Tal como os cartazes para colocar nos relvados das casas dos subúrbios são um reflexo da importância da casa individual" conclui.

"O papel que na Europa é dado ao autocolante na América está reservado ao pin", explica Pacheco Pereira. O uso de crachás e pins, que está bem visível em todas as vitrinas, começou na eleição do primeiro Presidente dos Estados Unidos: George Washington. Na exposição não faltam ícones, como o boné vermelho de Trump ou cartaz Hope da campanha de Obama. Mas para o historiador a campanha de Obama não foi muito forte.

"Nem sempre as campanhas com mais sucesso são as que ganham", assegura Pacheco Pereira, dando o exemplo de Alfred Landon, que em 1936 adotou o girassol como símbolo. "Foi uma grande novidade, funcionava muito bem, as pessoas reconheciam-no imediatamente", diz o historiador apesar de o republicano ter perdido para Franklin Roosevelt. Quatro anos depois, foi a vez de Wendell Willkie ser derrotado pelo democrata, mas o slogan republicano ficou para a história: "Roosevelt for Ex-President" (Roosevelt para Ex-Presidente).

Por falar em campanhas bem-sucedidas, historicamente um dos candidatos mais votados é o Rato Mickey. "Talvez este ano seja o Pato Donald", arrisca Pacheco Pereira. E é precisamente um pato, não o de Walt Disney mas de borracha amarela, que o historiador destaca na vitrina dedicada ao sarcasmo: "Gosto muito dele", diz apontando para o brinquedo com a cara do atual Presidente dos Estados Unidos.

Mas no espaço da propaganda negativa há mais por onde escolher: meias de Donald Trump "são um sucesso", uma bola anti-stress com a figura do candidato republicano, uma bala que afinal é uma caneta, uma pequena caixa de rebuçados de mentol da marca impeachments, Xi Jinping e Donald Trump prontos a iniciar um combate de boxe - "mas é um brinquedo que só funciona ao sol", diz o comissário -, ou um micro sabonete, "em alusão ao tamanho das mão do Presidente", explica ainda.

De resto, Pacheco Pereira salienta que a sátira é outro aspeto que distingue a política norte-americana da europeia: "Somos mais cinzentos, mas esta tendência começa timidamente a chegar" ao velho continente, avança o historiador. Deste ano, além das máscaras do movimento Black Lives Matter, há apenas material das pré-campanhas. Do lado democrata mais de uma dezena de crachás, representando os vários nomes que concorreram à nomeação, "ficaram todos pelo caminho", lembra.

Do lado republicano: quase só Trump. Há, isso sim, as memórias dos vários republicanos que há quatro anos tentaram travar o ex-apresentador de concursos televisivos. "Foram todos insultados por Trump, as mães foram insultadas, as famílias enxovalhadas e hoje, com exceção de Kasich, são todos subservientes ao candidato republicano", lembra Pacheco Pereira em tom de lamento.

O material da campanha de 2020 está retido nos correios, "ironia do destino", acrescenta o historiador, numa referência às polémicas entre Trump e o serviço postal norte-americano. "Se chegar entretanto teremos de aumentar a exposição", acrescenta.

Costa num tweet que é um cartaz

Mas nem por isso Pacheco Pereira deixa de estar atento ao que está a acontecer do outro lado do Atlântico. "Ainda nem dormi", diz em referência ao último frente a frente entre Biden e Trump, que, em Portugal, foi transmitido às 02h00 da madrugada de sexta-feira. "A campanha está crispada e vai continuar assim porque o que está em jogo nestas eleições é demasiado importante. O que na realidade está em causa é a democracia americana", atira.

Alguns das peças exibidas foram recolhidas fora dos Estados Unidos. É o caso de uma t-shirt com o rosto de Trump estampado por cima de sete letras verdes: "RACISTA" pode ler-se na peça recolhida no México. Ao lado, um cartaz feito à mão, respigado no final de uma manifestação ambientalista em Lisboa, simula um tweet do Presidente norte-americano, fervoroso utilizador da rede social, dirigido a António Costa. "Atira Trump contra o primeiro-ministro", resume Pacheco Pereira.

O impacto da política americana na vida portuguesa não se fica pelas manifestações, e o antigo eurodeputado está preocupado com uma eventual reeleição de Donald Trump. "Mais quatro anos acabam com as alianças de segurança, que neste momento são muito importante para nós, porque para todos os efeitos ainda há Rússia, mas também há China", sublinha Pacheco Pereira.

"A NATO entraria numa crise maior do que aquela em que já está. Todos os mecanismos de comércio internacional seriam afetados por uma política americana ainda mais nacionalista. Até a forma como a democracia é entendida seria afetada. No fundo, tudo isto seria um fator de radicalização à direita, mas também à esquerda em resposta."

Para Pacheco Pereira, ainda que o atual Presidente não venha a ser reeleito, "a base [da ordem internacional] vai continuar lá". Agora é o analista político que fala e não hesita em apontar o dedo aos responsáveis: "Criou-se um fenómeno populista no qual tem muita responsabilidade as elites dos diversos países, porque no fundo desprezam aquilo que eram o sofrimento e nalguns casos o ressabiamento de uma parte da população", acusa.

No entanto, o historiador acredita que uma possível derrota de Trump possa permitir à ordem internacional emendar a mão. "Quanto mais expressiva for essa derrota, melhor. Temos também de regressar aos tratados internacionais, que foram desprezados por esta administração. Esse é o caminho que modera, tudo o resto é radicalizar", conclui Pacheco Pereira.

A "Propaganda Nas Eleições Presidenciais dos EUA" pode ser visitada até dia 20 de novembro junto ao grande auditório do ISCTE, na avenida das Forças Armadas, em Lisboa. Se entretanto for aos Estados Unidos pode sempre recolher algum material de campanha para ajudar a engordar o arquivo Ephemera, o historiador vai certamente agradecer.

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