"Somos os diferentes." Sobreviventes do Holocausto veem ligação com "migrantes de hoje"
Cinema

"Somos os diferentes." Sobreviventes do Holocausto veem ligação com "migrantes de hoje"

Arianna, Tatiana, Helga, Sarah e Andra são cincos crianças judias levadas para os campos de concentração nazis, mas que, ao contrário de Anne Frank, sobreviveram ao Holocausto e viveram para agora o contar num documentário das realizadoras Sabina Fedeli e Anna Migotto. "Anne Frank - Vidas Paralelas" é um filme sobre a diferença e pretende ligar o passado ao presente.

A italiana Sabina Fedeli diz, em entrevista à TSF, que a jovem judia holandesa podia ser uma jornalista ou uma ativista como Greta Thunberg, o que, para a realizadora, são missões parecidas.

O filme não é apenas sobre a Anne Frank, é também a história de outras cinco mulheres e uma delas diz que, "depois dos campos de concentração, é impossível preencher o passado". É este um filme sobre o presente?

Procurámos não ser retóricas. Tentámos utilizar as imagens com grande delicadeza e parcimónia. Não queríamos dar murros no estômago, até porque estas imagens já foram vistas muitas vezes. Queríamos, acima de tudo, mostrar como estas senhoras... tão idosas... depois de tudo por que passaram, permaneceram mulheres - não sei bem como dizer - combativas, que sabem ainda encarar a realidade. Por isso é que o paralelismo entre as histórias é muito importante.

Depois, são mulheres que servem para mostrar aos mais novos que não nos podemos dar por vencidos, ceder, que temos de combater. Elas são sobreviventes porque o fizeram. Depois, tiveram uma vida... chamemos-lhe normal, com muitos pesadelos, com muitos medos, mas, no fundo, são mulheres que podem ensinar tantas coisas aos mais jovens

Têm uma cabeça, como direi, mais atual, mais revolucionária do que a de tantos jovens. Por isso, era importante mostrá-las, mais ainda porque duas delas morreram nos últimos meses. Queríamos também dar voz às segundas e terceiras gerações, aos filhos, aos netos, porque esta é uma história que ainda não acabou. É uma grande lição sobre o presente. O peso que significa para os jovens terem tido avós ou bisavós nos campos de concentração e quanto isto os pode afetar emocionalmente e influenciar a leitura que fazem da realidade.

Por isso é que, para nós, também era importante dar-lhes voz. Falamos muitas vezes da memória, do quanto é preciso manter a memória. Isso é verdade, mas temos que mantê-la modificando-a, não como um monumento, como algo que está vivo. Esperamos que, através destes jovens, tenhamos conseguido dar à memória uma voz verdadeira e atual.

Mas porquê fazer um filme partindo de uma história já tantas vezes contada?

Na realidade, o filme nasceu de uma coisa muito pequena: a filha do nosso produtor ficou muito entusiasmada quando acabou de ler o diário e perguntou-nos: "Porque é que não fazem qualquer coisa sobre a Anne Frank?". Respondemos que já tinha sido feita muita coisa, que era uma história já muito conhecida. Mas depois ficámos a pensar e fomos reler o diário. Naturalmente, é muito diferente lê-lo quando somos jovens ou quando somos mais velhos.

Aquilo que nos convenceu a recontar esta história foi a ideia de que este diário ilumina também o presente, porque assistimos ao ressurgimento do antissemitismo, do racismo, dos nacionalismos. Este diário pode funcionar muito bem para fazer entender os jovens, através de uma experiência tão dramática e direta como a da Anne Frank, como, de verdade, se pode não abandonar os ideais, não abandonar os direitos, os direitos humanos. Foi este o nosso ponto de partida para o documentário.

Acreditámos que o podíamos fazer para as novas gerações. A ideia de criar esta personagem jovem foi também uma camuflagem para criar uma identificação com os jovens de hoje em dia. Faz uma viagem pelo passado, mas também projeta luz sobre o presente.

A intérprete principal é uma jovem de hoje que comunica por telemóvel, e, no último plano, à contraluz, apresenta semelhanças com a Anne Frank. Quem é esta personagem?

Queríamos que a nossa jovem intérprete fosse a Kitty, a amiga imaginária da Anne Frank, ao início começámos a escrever assim. Depois entendemos que assim talvez não funcionasse e utilizámos esta rapariga como alguém que faz uma viagem geográfica, mas, simultaneamente, como alguém que faz uma viagem interior. Passado e presente viajam juntos. Era importante que fosse uma jovem de hoje a contar a história, a desemprenhar o papel principal. Porque era a melhor forma de ligar a atualidade com as cinco histórias. Ela viaja muito, estivemos em muitos países, fomos ao museu do Holocausto, fomos a vários pontos de França, às casas das sobreviventes.

A ideia era esta: uma viajem que podia ser feita por qualquer rapariga que termina o secundário e decide fazer um InterRail em que junta um pouco de diversão e cultura.

Ela parte de Bergen-Belsen, onde terminou a história da Anne e Margot, onde elas morreram. Portanto, é uma viagem de conhecimento interior, como as viagens pela Europa que estavam na moda no século XIX, mas ela viaja de uma forma moderna.

A imagem que temos do abrigo da Anne Frank é a de um quarto vazio, no entanto, no filme, ele aparece mobilado. Porquê?

Pensámos que era importante mostrar o quão pequeno era o quarto, porque se virmos [o espaço] vazio, parece um pouco maior. Conto-lhe uma pequena história: o quarto é uma réplica perfeita construída no Piccolo Teatro, em Milão. É como se fosse uma grande caixa de madeira dentro de um estúdio.

Quando a Helen Mirren chegou e abriu a porta e entrou no quarto, sentiu um aperto no coração, porque ela devia recitar tudo ali dentro. Disse-me que nunca tinha percebido quão pequeno era o quarto, porque, com as duas camas, a mesa e a cadeira, só sobrava um pequeno corredor. Ela disse que isso lhe tinha servido para desempenhar melhor o papel de intérprete do diário, porque viveu toda a claustrofobia que havia naquele espaço.

Essa era também a nossa ideia: transmitir a quem vê o filme este sentimento claustrofóbico, porque ela viveu ali dentro quase dois anos, naquele buraco. Movia-se, mas dava pouco passos, quase que só se podia sentar. Creio que dá muito o sentido da opressão, do aprisionamento, do desespero que é estar num espaço como aquele.

Este filme é muito direcionado para os mais novos. Já tem tido retorno da parte deles?

Antes do confinamento, fomos convidadas a apresentar o filme, a falar sobre a Anne Frank em muitas escolas. Víamos anfiteatros cheios de jovens barulhentos e pensávamos que eles não queriam saber daquilo para nada. Ao início, continuavam na conversa, parecia que não se interevassam nada pelo tema. Depois, pouco a pouco, iam-se calando, mostravam-se muito interessados, faziam muitas perguntas. Esta foi, para nós, a maior satisfação, porque havia um debate, íamos percebendo que qualquer coisa ficava, e esse era o nosso objetivo.

Eu e a Ana Migotto também somos jornalistas, entre outras coisas, fizemos reportagens de guerra. Pisámos terrenos perigosos e pensamos que o jornalismo não deve ser autorreferencial, deve servir um objetivo comum, caso contrário não é interessante nem para quem o faz. Ver estes miúdos tão atentos, interessados, foi, de facto, comovente. Deu sentido ao nosso trabalho.

Podemos pensar na Anne Frank como jornalista?

Podemos, e ela também queria isso. Ela ouvia a rádio Orange, era a estação pirata do Governo holandês no exílio, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros anunciou que no final da guerra todas as memórias, diários e testemunhos semelhantes seriam recolhidos e os melhores seriam publicados em livro, ela começou a reescrever o diário.

Nós temos a ideia de que o diário é aquele caderno com a capa aos quadrados vermelhos, mas, na realidade, eram muitos volumes. Ela escrevia muito e começou a passar a limpo, a corrigir a sintaxe, a gramática, a forma. Dizia: "Seguramente, vou conseguir publicá-lo. Quero que a minha vida sirva para qualquer coisa. Quero ser uma jornalista ou uma escritora". Tinha também o conceito do jornalismo ao serviço da sociedade. Era uma pessoa muito ambiciosa.

Falávamos há pouco na ligação do filme ao presente. Quem são na atualidade os mais frágeis? Os migrantes?

Certamente. No filme, quando termina a história da Anne Frank, começam as histórias paralelas das nossas cinco sobreviventes, que, na altura, eram jovens como ela.

Quando entrevistámos as sobreviventes, todas elas, de uma forma muito espontânea e muito natural, fizeram a ligação com os migrantes de hoje. Uma contou-nos que, quando vê na televisão as filas de migrantes, por exemplo na Grécia, recorda-se do que viveu. "Estávamos em filas, não tínhamos documentos... Éramos os diferentes", disse-me. Porque, no fundo, a questão é esta, a da diversidade.

A Helen Mirren disse-me que tinha aceitado fazer o filme porque também ela se tinha sentido "uma diferente". O pai e o avô fugiram da Rússia, começaram por baixo em Inglaterra, foram taxistas, ela sabe o que quer dizer lutar, não ter direitos nem documentos. Portanto, a ligação foi feita quer pela atriz, que pelas sobreviventes que o sofreram na própria pele.

Quem seria nos nossos dias a Anne Frank?

A Anne Frank era uma rapariga muito inteligente, por vezes era mesmo pedante, daquelas que sabem sempre tudo, mas tinha uma visão profunda sobre as coisas, sobretudo nunca estava calada. Não obstante ter estado fechada durante um ano e meio, continuou sempre a acompanhar o que se passava no mundo. Podia ser uma Greta Thunberg de hoje, uma Malala, uma destas jovens que tiveram a coragem de expor as ideias e coragem de se exporem.

Veja a Entrevista com a atriz Helen Mirren:

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