"Surdina." Tragicomédia minhota ou sado-maso-fado
Cinema

"Surdina." Tragicomédia minhota ou sado-maso-fado

Um filme feito, filmado, passado (e presente) na terra do realizador. Quando essa terra é berço do país, necessariamente, é um filme sobre... raízes. O novo de Rodrigo Areias, com banda sonora de Tó Trips para ser tocada ao vivo e texto de Valter Hugo Mãe. Estreia esta quinta-feira no Porto.

Estreia esta quinta-feira, em dose dupla face à limitação da lotação da sala por respeito às normas sanitárias, no Trindade, no Porto. Na sexta-feira joga em casa: é a vez dos jardins do Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. Para a semana, no Amoreiras em Lisboa e ainda em Aveiro. Mais virão, quando, e se, a pandemia o permitir.

Não é a primeira vez que o cinema de Rodrigo Areias aparece intimamente associado à música. Com Paulo Furtado, o produtor e cineasta vimaranense, fez "Honey, You"re too much" (2006), a curta "Domesticada" em 2011, videoclipes com o próprio Legendary Tiger Man, mas também Wray Gunn e Mão Morta, e em 2012, o aclamado Estrada de Palha, apresentado no modelo cine-concerto, com música tocada ao vivo por Rita Redshoes e Paulo Furtado.

Agora, para este filme com texto de Valter Hugo Mãe, a sociedade cúmplice é com o Dead Combo, Tó Trips. "A música é uma parte importante da minha vida e do meu percurso profissional", admite o realizador, à conversa com a TSF numa mesa de esplanada do jardim Fernando Pessoa, ao Areeiro, em Lisboa.

Areias é metódico: "É importante para mim que, nos filmes, as coisas sejam pensadas de antemão e neste caso, o Tó já fazia parte deste processo desde a sua génese: leu o argumento, disse o que é que pensava sobre o assunto, o nome dele já aparecia quando nos candidatámos a apoios." Em "Surdina", a participação do fundador dos Dead Combo está relacionada com o bucolismo do filme, o lado mais melancólico "da guitarra tão característica, à Tó Trips, que tanto marcou os Dead Combo mas que eu acho", acrescenta o realizador, "que é muito particular na sua forma de tocar, dando uma espécie de sado-maso fado que é muito único".

Tó Trips vai estar em minidigressão com o realizador e o seu filme. Areias confessa que, por causa da pandemia, a maior parte dos cine-concertos que tinham programado "tiveram de ser adiados".

"Se calhar lá mais para a frente, porque hoje em dia a gente também não sabe nada", atira o guitarrista. Já há outros convites para filme-concerto Surdina, casos de Madeira e Fundão. O músico dos Dead Combo estará em palco, ao vivo, a fazer "a versão em guitarra" das músicas da banda sonora que compôs.

Não sendo uma coisa propriamente nova, admite que andar na estrada (em digressão) com um filme é diferente do que fazê-lo com uma banda. "Sim, mas também já viro frangos nisso há muito tempo", recordando o trabalho com o cineasta Edgar Pêra que, de alguma forma, esteve na génese do que vieram a ser os Dead Combo.

A música de Tó Trips casa na perfeição com a tortura interior do homem, Isaque, num papel superiormente interpretado por António Durães, que enviuvou sem que a mulher tenha morrido. Texto de Valter Hugo Mãe, Surdina começa com o falatório na terra mas sem segredos: a morta do Isaque da Morta apareceu na feira com outro homem, mais novo.

"Percebe-se ao longo do filme, que ela o abandonou, ao fim de vinte anos, que o trocou por outrem; e que o protagonista, com a conivência do padre, consegue simular um funeral, embeleza a campa com afinco todas as semanas e o filme arranca no momento em que toda a comunidade se apercebe que ela afinal está viva e voltou com outro homem, foi vista na feira de braço dado com outro".

Velhas beatas e amigos alcoviteiros dão corpo ao falatório que corre na terra sobre o que vai ser agora daquele homem que, há vinte anos, fez o funeral à mulher e que, todas as semanas, vai ao cemitério perpetuar a perda dela, Dores. O regresso de quem, afinal, ansiava mais (e conseguiu) um grito de liberdade do que uma despedida da vida terrena muda tudo na vida de quem já não sabe "o que fazer ao tempo", como afirma, a dado passo do filme o protagonista, num contexto de decadência industrial que o realizador quis trazer ao argumento do escritor, também de origens vimaranenses.

Rodrigo Areias explica que "esse foi um dos poucos inputs que eu trouxe para o argumento". Quis explicar a letargia provocada pelo desemprego pós-industrial numa região que "sempre viveu alicerçada economicamente em grandes empresas têxteis e de calçado e que no final dos anos noventa, início dos anos 2000", se viu a braços com a destruição de postos de trabalho que afetou "mais de 200 mil pessoas" , o que provocou "uma avalanche depressiva, porque pessoas com mais de 45, 50, algumas a chegar aos 60 anos, passam a ser vistas como pessoas descartáveis do ponto de vista económico neoliberal". Toda uma população de uma faixa etária que ficou sem chão, gente que não se habituou a não ter hobbies, a não estar em coletividades, porque toda a vida foi mero instrumento de trabalho". A dignidade de cada uma dessas pessoas "é dada através disso mesmo." Nesse sentido, acrescenta o cineasta, "o desemprego desenraíza profundamente, as pessoas acabam por não saber o que fazer, não só ao tempo, mas consigo mesmas". A região que o filme retrata, e na qual o filme respira, "acabou por ser dilacerada por essa realidade".

No filme, as pessoas que estão no tasco "estão à espera que alguma coisa aconteça", uma explosão de emoções que as faça reagir. É o momento do insulto, do vernáculo cuspido (brando, para modos reais da terra), do ódio momentâneo porque sim ao compincha da mesa, "tudo é provocado porque aquilo é um momento de passagem de tempo".

Um filme feito, filmado, passado (e presente) na terra do realizador. Quando essa terra é berço do país, necessariamente, é um filme sobre... raízes. "Sim, é um filme que eu faço em casa, sendo que a minha casa é Guimarães e que faço com pessoas próximas, não só geograficamente, muitos são não-atores e que contracenam com atores, mas também pessoas próximas enquanto família do cinema, amigos com quem trabalho normalmente, portanto, os meus amigos. Neste sentido, é um filme caseiro, como a maior parte dos filmes que eu faço", afirma o realizador.

Para o músico e um dos fundadores dos Dead Combo, "fazer uma banda sonora é sempre um desafio. Neste caso, como é um filme sobre velhice, mudar de vida, solidão e memórias, mas também um lado popular, todos esses conceitos têm muito que ver com aquilo que eu tenho vindo a fazer na guitarra. A cena da nostalgia e da memória", admitindo o músico que não foi algo que tenha saído muito "fora da caixa". Esse conforto de sentir "um bocado em casa", também o soube romper, com excelência, arriscando: "Foi a primeira vez que toquei piano e introduzi outras coisas."

A TSF pede ao autor da banda sonora o complexo distanciamento de uma obra para a qual contribuiu de forma preponderante. Como espectador, que filme é este? "É um filme diferente. Logo à partida, porque trata de um tema que, normalmente o cinema e toda a sociedade de consumo, não trata: os mais velhos. Logo à partida, distingue-se por isso, ao abordar o envelhecimento, aquilo que normalmente não associamos à velhice, que é o facto de alguém se apaixonar ou mudar de vida, que normalmente ligamos a malta mais nova, só por aí é um filme completamente diferente. Tudo nesta sociedade é feito para malta nova, ou seja, para quem consome coisas." Para muitos, a alternativa foi a emigração, mas esta aparece revestida de escravatura, quando Isaque afirma: "Só faltou chuparem-nos os ossos." Areias complementa com o fator geracional; "estamos a falar de pessoas para quem isso já não faz sentido agora", diferente dos tempos pré-25 de Abril de 74 em que houve "uma desertificação nacional", uma vez que o fim do ciclo ativo "já não é propício à emigração", bem diferente "da minha geração que há uma década emigrou em massa porque estava na idade própria para isso. No filme, os personagens são de outra idade".

"Surdina" é, também, um filme sobre liberdade: "a metáfora dela (a morta-viva Dores) é dos pássaros, a dele é a da jaula". Ele, para mudar e começar uma nova vida e dar espaço a um novo amor (com a Dona Micas, Ana Bustorff), "tem de matar o animal que há dentro dele" e, independentemente do que o povo da terra falar, "porque o povo nunca se calará. Ele prefere ser feliz ainda que as pessoas falem", porque não ser feliz não vai fazer com que as pessoas deixem de falar.

Areias resume o filme num conceito: "uma tragicomédia minhota de costumes". Algo que, sendo culturalmente português, trata uma "realidade muito particular mas que não deixa de ser universal".

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