"Uma história de avanços e de recuos." Portugal durante os últimos dois séculos

História Social Contemporânea é uma obra com coordenação de António Costa Pinto e Nuno Gonçalo Monteiro, que procura refletir sobres as transformações na sociedade portuguesa ao longo dos últimos 200 anos.

Neste dias em que as viagens estão limitadas a um filme, ou um livro, no sofá ou sentado na varanda, vem a propósito fazer esta viagem num livro chamado A História Social Contemporânea. A obra abrange dois séculos da história de Portugal e reflete como como mudámos, se é que mudámos, desde a queda do império português.

Esta edição, da Fundação Mapfre e da editora Objetiva, é o resultado de um trabalho de vários cientistas sociais, desde António Barreto, a António José Telo, passando por Jorge Pedreira e Álvaro Garrido.

Ao longo de cinco capítulos, o trabalho coordenado por Nuno Gonçalo Monteiro e António Costa Pinto mostra os impactos sociais das mudanças políticas e a forma como se combinaram com as transformações e as continuidades na sociedade portuguesa.

O jornalista Nuno Domingues conversou com os coordenadores deste projeto.

Mudámos alguma coisa nestes dois séculos?

Nuno Gonçalo Monteiro - Mudámos em diferentes fases e com diferentes ritmos. Não mudámos sempre à mesma velocidade, nem da mesma maneira. Houve períodos em que a cristalização de certas características da sociedade portuguesa é a nota dominante.

Este é um livro sobre história social de Portugal. Não é exatamente a mesma coisa que um livro sobre história económica ou sobre história política. O social é um território específico diferenciado em que nós podemos associar a dimensões como a esperança média de vida ou idade do primeiro casamento, podemos também associar a desigualdade social. É um território diferenciado de outros territórios. No fundo, é um conjunto de medidas e de temas que não se confundem com todos os outros.

Portanto, a relação entre a política e a sociedade é uma relação que também varia ao longo de todo este período.

Em todo o caso, este período é balizado por formas específicas de relação entre o político e o social. A primeira delas é uma rutura da ordem política internacional e também da ordem militar, com todas as suas implicações - são as guerras napoleónicas e o primeiro ciclo das independências americanas. Portugal era um território muito conectado com o Brasil, tal como se explica, em detalhe, no livro.

A revolução liberal surge nesse contexto. Sendo uma revolução política é também uma revolução da forma como a sociedade é vista, avaliada e classificada. Esta é uma primeira baliza à qual damos um destaque muito particular.

Como se explica no livro - de uma forma muito detalhada - as mudanças institucionais, as transformações da ordem jurídica, tiveram um impacto muito diferido no tempo. Se as mudanças foram muito acentuadas no plano social e político, no plano social houve mudanças, mas depois houve também cristalizações sociais que se mantiveram durante bastante tempo.

O último dos cinco capítulos do livro, que se reporta ao Portugal dos anos 60 (do século passado) e se estende até ao início nosso milénio, traduz outro parâmetro de mudança - a transformação de Portugal, finalmente, numa sociedade com níveis de urbanização e com indicadores sociais semelhantes a outros territórios europeus.

É uma história de avanços e de recuos?

António Costa Pinto (ACP) - Exatamente. É uma história de avanços e de recuos. Há uma obra sobre Espanha que se chama "A Mudança Social em Espanha. A Longa Festa". Num certo sentido podemos dizer isso para o Portugal Contemporâneo. Ou seja, Portugal no início do séc. XX era ainda uma sociedade predominantemente rural, com taxas de analfabetismo gritantes, com uma taxa de urbanismo relativamente diminuta. Entre primeira República e o Estado Novo existem algumas continuidades. De facto, o Portugal de Hoje é o Portugal que num certo sentido é produto da grande mudança da década de 60, que ironicamente se dá num contexto de ditadura e guerra colonial, mas simultaneamente conheceu um processo de desenvolvimento económico de crescimento das classe médias, de europeização - coincidente com uma importante vaga de imigração para a Europa, que é um marco estruturante da sociedade contemporânea portuguesa.

Sob este ponto de vista, o 25 de abril é a fronteira da democracia, mas este processo começou claramente nos anos 60.

Quem foram os grandes perdedores do séc. IXX?

ACP - Os grandes perdedores do início desse século foram a grande aristocracia e a Igreja.
No primeiro terço do século IXX, em Portugal, aconteceu uma grande rutura. Lisboa sofreu uma transformação muito grande no pós terramoto. A conquista da cidade pelos liberais em 1833, está associado a uma transformação das características funcionais de Lisboa.

Por exemplo, os palácios de Lisboa são quase todos abandonados e sequestrados durante algum tempo e quase todos os conventos (que eram os maiores edifícios da cidade) são extintos e afetados para novas utilizações.

A época contemporânea começa com uma rutura política, mas que é também uma rutura institucional e social muito marcante.
As elites de 1900 não são as elites que existiam em Portugal em 1833.

As elites tinham algum poder no final do séc. XX?

ACP - Um dos episódio mais marcantes do processo de mudança social em Portugal é que se a sociedade em que vivemos tem (eu não diria início) um processo muito marcante ao longo da década de 60.

Nos anos de 1974 e 1975, conheceu uma conjuntura que não alterou a ordem social, mas é o único período da história portuguesa em que existe uma tentativa de rutura com a ordem social existente, as elites têm medo social, existe uma dinâmica de pré-revolta social a partir de baixo, que tenta alterar - não apenas a desigualdade social - sobretudo a hierarquia social, mas que no fundamental vai ser reposta com a consolidação da democracia e a integração de Portugal na União Europeia.

O motor mais visível da mudança social que preside à sociedade contemporânea é a maior integração da economia portuguesa com a economia europeia e que no fundo com o desvio de 74/75 é claramente com a adesão de Portugal à União Europeia.

A História Social Contemporânea é uma edição coordenada por António Costa Pinto e Nuno Gonçalo Monteiro, investigadores no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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