Centeno: o desajeitado que acabou a fazer política como Ronaldo joga à bola
Mário Centeno

Centeno: o desajeitado que acabou a fazer política como Ronaldo joga à bola

Conseguiu o primeiro superavit da história da democracia e sai do Governo como o "Ronaldo das Finanças". O percurso de Mário Centeno no Governo chegou ao fim esta terça-feira.

Quando Mário Centeno se estreou, em dezembro de 2015, como ministro das Finanças no Parlamento, Passos Coelho revelou-se um homem divertidíssimo. Ladeado na bancada do PSD por Luís Montenegro e Marco António Costa, o antigo primeiro-ministro chorava a rir da intervenção algo desajeitada de um Centeno a quem poucos reconheciam capacidades políticas mas que tinha chegado a ministro das Finanças.

Quanto tempo terão durado as gargalhadas de Pedro Passos Coelho? Terá continuado a rir-se quando Centeno conseguiu um défice de 2,1% do PIB em 2017, o mais baixo desde 1974? Ou quando, no mesmo ano, foi eleito presidente do Eurogrupo, numa altura em que já era conhecido como o "Ronaldo do Eurogrupo"?

Foi com estas vitórias no plano económico - mas também no plano político - que Mário Centeno foi respondendo aos críticos e a todos os que um dia colocaram em causa a sua capacidade política. Mas foi precisamente quando mergulhou na política que o ministro acabou por se envolver em algumas polémicas que lhe marcaram o mandato.

Do episódio com António Domingues na Caixa Geral de Depósitos à transferência de 850 milhões de euros para o Novo Banco - um dos catalisadores para a saída do Governo - sem esquecer uma troca de recados com o seu próprio primeiro-ministro a propósito do Orçamento Europeu, Mário Centeno não conseguiu livrar-se de algumas nódoas no pano do primeiro-ministro das Finanças que concluiu uma legislatura completa e que ficará na história por ter sido o primeiro a conseguir um superavit orçamental em democracia.

Costa e Centeno: como tudo começou

A história de Mário Centeno no Governo começa a 26 de novembro de 2015. Nascido em Olhão em 1966, chegava ao executivo vindo diretamente do Banco de Portugal - onde ainda tem o seu lugar à espera - foi economista, diretor-adjunto do Departamento de Estudos Económicos e consultor da administração. Em 2015, além de não lhe serem conhecidas ligações políticas e de nunca ter ocupado qualquer cargo dessa natureza, também não conhecia pessoalmente António Costa.

Centeno viria a integrar o grupo de 12 economistas convidados pelo então secretário-geral do PS para traçarem o cenário macroeconómico com que o PS se haveria de apresentar a eleições e a agenda para a década que serviria de base ao programa eleitoral do PS nas legislativas de 2015. A integração de Mário Centeno nas listas socialistas era apenas mais um sinal de que, uma vez no poder, Costa podia levá-lo para o Governo. E foi isso que aconteceu.

No mundo da Economia, os seus pares consideravam-no um "liberal". Um rótulo que, à época, Centeno recusava e dizia não assentar-lhe, preferindo uma outra definição: "Culturalmente, sou de esquerda."

O tempo e a experiência governativa foram-lhe moldando a habilidade política, mas foram sobretudo os números começaram a falar por Centeno. Em março de 2017, o Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmava que défice de 2016 tinha ficado nos 2,1%, o valor mais baixo de 1974 e um número que ficava abaixo da projeção inicial do Governo, de 2,2%. Em 2019 alcançou o primeiro superavit orçamental de 0,2%. Por esta altura, já a primeira grande polémica tinha ficado lá atrás.

A polémica com a CGD

Era um dos dossiês mais difíceis que o novo ministro tinha pela frente. Em 2016, Mário Centeno escolhe António Domingues para presidente da Caixa Geral de Depósitos, um banco a precisar de uma injeção de capital, que implicava uma reestruturação do banco público, num caso que acabou por originar duas comissões de inquérito e em que Centeno foi acusado pela direita de ter mentido ao parlamento.

O ministro justificou-se com um "erro de perceção mútuo" em relação a um SMS enviado a Domingues, no qual admitia a possibilidade de este não ter de apresentar a sua declaração de rendimentos e património ao Tribunal Constitucional.

Para cumprir esse objetivo, o Governo alterou o Estatuto de Gestor Público, mas havia um outro problema. Uma lei de 1983 impunha que a declaração tinha de ser entregue. E é aí que entra em cena o Presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa recebia Centeno em Belém para perceber o que tinha, afinal, acontecido. Foi após esse encontro que, em conferência de imprensa, o ministro falou do tal "erro de perceção mútuo".

No mesmo dia, o Presidente da República vinha a público dizer que: "Ouvido o Senhor Primeiro-ministro, que lhe comunicou manter a sua confiança no Senhor Professor Doutor Mário Centeno, aceitou tal posição, atendendo ao estrito interesse nacional, em termos de estabilidade financeira".

Ou seja, Marcelo Rebelo de Sousa deixava claro que Centeno ficava, mas apenas por "interesse nacional". Duas comissões de inquérito depois, o tema acabaria por passar e o ministro das Finanças salvava-se da sua primeira grande polémica. Já António Domingues não teve tanto sucesso: demitiu-se da liderança da CGD em novembro de 2016, não completando três meses à frente do banco.

Se toda esta história foi uma finta bem feita não se sabe, mas no ano seguinte Centeno seria mesmo comparado com alguém que as sabe fazer. E bem.

O "CR7 do Eurogrupo"

Em maio de 2017, o então ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble - citado pelo POLITICO -, referia-se a Centeno como o "Ronaldo do Eurogrupo". Foi uma espécie de bênção para o que aconteceria a seguir.

O ano de 2017 haveria de trazer, em junho, a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo e em setembro a Standard and Poor's tirou finalmente a dívida nacional do 'lixo'. Centeno começava a voar mais alto. Tão alto que, em dezembro, chegou ao Eurogrupo.

À segunda volta, e por maioria simples, Mário Centeno foi eleito pelos seus pares para liderar o grupo informal que reúne os ministros das Finanças da Zona Euro e no qual são coordenadas as políticas económicas. O maior crescimento da economia portuguesa no século XXI foi apenas a cereja no topo do bolo.

#SomosTodosCenteno

A vida corria bem ao ministro que não era político e que preferia que os números falassem por si. Ou quase, não tivesse começado a ouvir-se cada vez mais uma palavra que hoje todos conhecemos: "cativações".

Este é um instrumento que permite às Finanças reter verbas que estão destinadas às várias entidades da Administração Pública e, segundo a Conta Geral do Estado, o Ministério das Finanças tinha mantido retidos 942,7 milhões de euros em 2016 e 555,6 milhões de euros em 2017. A Saúde era uma das áreas que gerava mais preocupação e o PSD fez questão de levar o tema ao Parlamento.

Entra em cena Adalberto Campos Fernandes. O antigo ministro da Saúde era chamado à Assembleia para debater, com caráter de urgência, o estado da sua tutela no país e a oposição explorava a narrativa de que a Saúde estava dependente das Finanças.

Numa resposta ao CDS, Adalberto Campos Fernandes quis deixar algo claro: "Não vale a pena ir pelo caminho de que existirá um grande cisma no Governo entre o ministro da Saúde e o ministro das Finanças. Esse é um caminho errado e completamente esgotado."

Qualquer oposição a Centeno e às suas políticas e cativações estava posta de lado mas, talvez imbuído pelo espírito de estar na mesma equipa que o "Ronaldo" das Finanças, o então ministro da Saúde foi mesmo mais longe: "Somos todos Centeno."

A expressão fez eco e passou a fazer parte do lote de frases intemporais que a política, de quando a quando, dá ao mundo. E a Centeno.

O então ministro das Finanças não perdeu a oportunidade de usar a frase para, poucas semanas depois, não só responder à oposição como defender as suas cativações.

Foi numa audição conjunta nas comissões parlamentares de Saúde e de Finanças, que Centeno afirmou: "Não somos todos Centeno, somos todos Adalberto." Uma vez mais, a frase fez sucesso e arrancou gargalhadas aos presentes.

O contexto? Defender que a saúde era "o setor da administração pública que teve o maior aumento orçamental". Centeno aprendia a ser político. Mas ainda faltava qualquer coisa.

O FMI foi um fim que não chegou

Em ascensão, Centeno lança-se, no verão de 2018, a um projeto não teve o melhor desfecho. A notícia surgiu com "pezinhos de lã".

Em julho, Christine Lagarde anunciava a sua saída do Fundo Monetário Internacional para ir suceder a Mario Draghi no Banco Central Europeu. Com o lugar vago, o nome de Centeno surgia numa lista de possíveis sucessores - que incluía também Jeroen Dijsselbloem, Olli Rehn e Nadia Calviño em duas notícias distintas de órgãos internacionais de informação.

Dias depois, o próprio primeiro-ministro António Costa admitia que Centeno era uma hipótese para liderar o FMI, tal como o Governo francês faria dias depois, mas desta feita havia um novo nome na lista: o da búlgara Kristalina Georgieva, então diretora executiva do Banco Mundial.

Tudo evoluía de forma rápida e, na semana seguinte, a Bloomberg já dava Mário Centeno como estando fora da corrida. Foi a 1 de agosto que o próprio ministro das Finanças esclareceu, afinal, que não ia.

França tinha proposto um método de escolha que obrigava a uma maioria qualificada de 65% da população da União Europeia, algo que, segundo Mário Centeno, seria impossível de atingir porque as posições estavam demasiado divididas. Ou seja: não desistia da corrida, mas também não ia a votos.

Nos dias que se seguiram, também Nadia Calviño e Olli Rehn desistiram da corrida. Georgieva ganhou a corrida europeia frente a Jeroen Dijsselbloem ao conquistar as votações dos ministros das Finanças da União Europeia (com a abstenção do Reino Unido) e, em setembro, chegou mesmo à liderança do FMI.

Centeno ficou de fora mas mostrou que já sonhava com voos mais altos. E o mundo parecia apoiá-lo: foi eleito o melhor ministro das Finanças da Europa pela revista The Banker, do grupo Financial Times, e ainda a personalidade do ano para a Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal. E foi precisamente no estrangeiro que Centeno teve problemas com alguém... nacional.

Amigos amigos, orçamentos europeus à parte?

Foi em pleno Conselho Europeu que Costa e Centeno, aqui enquanto primeiro-ministro português e presidente do Eurogrupo respetivamente, se desentenderam. Em causa estava o primeiro orçamento da zona Euro.

Conta o Expresso que os dois políticos trocaram "argumentos" em plena reunião e à frente dos outros responsáveis europeus, o que terá originado uma situação "estranha".

A "troca de argumentos entre Costa e Centeno em plena sala do Conselho Europeu" foi algo que "demorou algum tempo", como explicou uma fonte europeia ao jornal. Já o site Politico explicava que Costa queria "pedir mais dinheiro para os fundos de coesão", algo que minava "o trabalho do seu próprio ministro das Finanças".

O primeiro-ministro tentara "mudar o texto das conclusões de forma a retirar a referência aos termos do instrumento orçamental" negociados por Centeno como presidente do Eurogrupo, mas acabou por perder a discussão e os "termos" ficaram mesmo. Aliás, Centeno reuniu mesmo o apoio de outros líderes europeus.

No fundo, Costa queria que a "fórmula" do instrumento orçamental para a convergência e competitividade da Zona Euro (BICC) fosse alterada por permitir que países ricos recebessem mais fundos comunitários do que Portugal. O presidente do Eurogrupo ganhou e a fórmula ficou igual.

Habemus superavit

Era sempre a subir para Centeno. Com o Governo já reeleito, Portugal atinge em 2019 o primeiro superavit, que é como quem diz um saldo positivo nas contas públicas, desde 1973.

A taxa de desemprego estava nos 6,5% e a economia crescia 2,2%, mas novos voos pareciam chamar de novo por Centeno: desta vez era o cargo de Governador do Banco de Portugal que ganhava outro brilho, com o mandato de Carlos Costa a terminar em julho de 2020. Mas esse brilho nos olhos veio acompanhado de outra polémica.

Os 850 milhões da discórdia

Maio de 2020. No Parlamento, António Costa garantia a Catarina Martins que, até que estivesse concluída a auditoria ao Novo Banco, não haveria "qualquer reforço do empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução para esse fim". Fechou-se o microfone e começou o ruído nas chamadas telefónicas.

O Expresso revelava que, nessa mesma semana, tinham sido transferidos 850 milhões de euros para o Fundo de Resolução, que tinham como destinatário final o Novo Banco. E o primeiro-ministro vê-se obrigado a vir a pedir desculpas a Catarina Martins pela informação errada. Primeiro pessoalmente e depois publicamente.

As atenções viram-se para Centeno: como era possível que o primeiro-ministro não tivesse conhecimento de um empréstimo desta dimensão? É na TSF que Mário Centeno admite que "terá havido uma falha de comunicação entre o ministério das Finanças e o primeiro-ministro no debate quinzenal", mas garante que "não houve nenhuma falha financeira nem nenhum incumprimento".

Ou seja, o contrato estava a ser cumprido, até porque "a falha financeira e de incumprimento teria um caráter desastroso para o sistema financeiro e o sistema bancário e levaria a um atraso na recuperação da confiança da economia". E era preciso pedir desculpa por tudo isto? Para Centeno, não. "Não temos que pedir desculpa por trabalhar em conjunto. Isso era virar o mundo ao contrário."

As palavras do ministro são interpretadas como uma confirmação de que Costa teria sido desautorizado.

Um 13 de maio pouco santo

No dia seguinte, Marcelo Rebelo de Sousa veio juntar-se à trama. Numa visita à Autoeuropa e perante o inusitado apoio de António Costa à recandidatura de Marcelo, o Presidente da República tentou desviar o assunto para o tema do Novo Banco e acabou por tirar o tapete a Centeno.

"O primeiro-ministro esteve muito bem no Parlamento quando disse fazia sentido que o Estado cumprisse as suas responsabilidades mas, quando se conhecesse, previamente, o resultado da auditoria", explica Marcelo Rebelo de Sousa. E ainda acrescentou que "havendo, e bem, uma auditoria cobrindo o período até 2018, auditoria que eu pedi há um ano, faz todo sentido o que o primeiro-ministro disse no Parlamento. É politicamente diferente o Estado assumir responsabilidade dias antes de se conhecer a auditoria, ou a auditoria ser concluída dias antes, do Estado assumir responsabilidades".

O recado estava dado e teve efeitos quase imediatos. Rui Rio apressou-se a pedir a demissão do ministro das Finanças. Nessa mesma noite, Costa e Centeno reúnem de emergência em São Bento e as sirenes do Governo disparam: estaria o ministro das Finanças prestes a abandonar o Governo?

As horas de espera foram longas e já perto da meia-noite, o gabinete de António Costa emitia um comunicado no qual o primeiro-ministro afirma manter "a confiança pessoal e política" em Mário Centeno, contando com o ministro para a elaboração do orçamento retificativo. Estaria o assunto completamente encerrado? Toda a gente sabia que não.

Mário Centeno virou-se para o Orçamento Suplementar. A pandemia de Covid-19 veio criar um buraco nas contas públicas e prevê-se a maior recessão da economia portuguesa em tempo de democracia, de 6,9%, de acordo com previsões do Governo.

Sem nunca ter precisado de apresentar qualquer Orçamento Retificativo, a pandemia obrigou-o a elaborar um Orçamento Suplementar, documento que apresenta no dia em que pediu a sua exoneração ao Presidente da República, que este já aceitou.

Com o mandato no Eurogrupo a terminar a 13 de julho, Mário Centeno também já fez saber que não se recandidatará à liderança do Eurogrupo, até porque para liderar esse órgão é necessário ser-se ministro das Finanças do seu país. O adeus de Centeno está marcado para as 10h da manhã da próxima segunda-feira, 15 de junho.

Foram 1664 dias à frente do ministério das Finanças. As contas são do próprio. Mário Centeno que abandonou, esta terça-feira, o Governo de António Costa. Segue-se o Banco de Portugal? Tudo indica que sim e João Leão, o novo ministro, é o homem que corre o risco de assinar a nomeação de Mário Centeno como Governador.

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