Em bairro "abandonado" pela autarquia local, CDU diz que Governo "não toca no bife do lombo do capital"

Jerónimo de Sousa foi ao bairro da Icesa, em Vialonga, acusar os socialistas de não tocarem no "bife do lombo dos interesses do capital", privilegiando os interesses das multinacionais.

É manhã cedo e o bairro está ainda calmo. Três mulheres abandonam o prédio em que moram no bairro da Icesa, em Vialonga, uma delas com um alguidar à cabeça, outra leva um balde de feijões, outra com dois garrafões de água. Vão cozinhar em comunidade. Será cachupa? Estamos à porta da Associação dos Africanos do concelho de Vila Franca de Xira, num bairro multicultural, onde a mistura de culturas pode ser uma riqueza e, ao mesmo tempo, problemático.

Jerónimo de Sousa, secretário geral do Partido Comunista Português, veio aqui acusar os socialistas de não tocarem no "bife do lombo dos interesses do capital", privilegiando os interesses das multinacionais, uma área em que recebe o apoio de toda a direita "de forma escandalosa".

Mas antes da política nacional e da troca de acusações, tão típicas destas campanhas eleitorais, vamos ao bairro e aos problemas locais. Estamos nas autárquicas, por isso, mais do que a troca de galhardetes nacionais, importa entrar nos problemas daqueles, como Fernanda Brioso, veem nas dificuldades do dia a dia a razão para fazer esvoaçar ao vento (estava muito vento esta manhã) as bandeiras de uma determinada força política, neste caso concreto a da CDU.

Elson Semedo vive no bairro de Icesa, onde "faltam projetos direcionados para os jovens, faltam atividades para as crianças", onde são marcantes os "desinvestimentos que foram feitos ao longo dos anos", mas onde reinam "as promessas de uma escola secundária que nunca apareceu" ou "das piscinas municipais prometidas pelo partido da câmara e que ainda não aconteceram". Elson Semedo sente-se enganado. "Foi uma forma de enganarem a população, 20 anos de promessas que não se cumpriram", falou elevando o tom de voz.

Vialonga é a terceira maior freguesia do concelho de Vila Franca de Xira, com cerca de 22 mil habitantes, que continua a estar "isolada por falta de transportes" e de ligações diretas, por exemplo, a Lisboa. Janine Ferreira, candidata à Assembleia de Freguesia de Vialonga dá voz a este descontentamento e questiona-se "como a câmara não conseguiu exigir esse serviço a uma empresa que teve mais de 12 milhões de euros de lucro, muito desse dinheiro injetado pelo erário público". Urge ainda, diz Janine Ferreira renovar a frota e aumentar o número de autocarros.

"Bem-vindo ao meu bairro", abre os braços Leonor Alves, a candidata à Junta de Freguesia de Vialonga, ao dizê-lo. É sítio de "gente de trabalho, com vidas duras, mas alegres, onde as crianças brincam na rua e os vizinhos convivem ao som da música. Aqui vive-se um enorme sentimento de pertença e de comunidade".

Era aqui que funcionava o projeto "Viver o bairro", que parece ter sido abandonado pela gestão do PS na câmara local. Queixa-se a candidata que, agora, "é a junta de freguesia que investe na recuperação do espaço público, consciente de que o bairro merece muito mais".

Por aqui pede-se a recuperação do Hospital da Flamenga e ouvem-se lamentos sobre o abandono e vandalismos de que tem sido alvo esta antiga unidade hospitalar, que foi sanatório e depois, mais tarde, serviu de apoio ao Hospital de Vila Franca de Xira. Contam-nos que foi na gestão socialista de Maria da Luz Rosinha, nos finais dos anos 90, que foi definitivamente encerrado e que deixou de ter segurança, passando continuadamente a ser alvo de roubos e vandalismo.

"Se a simpatia fossem votos, o resultado estava feito"

Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP não se admira que os populares se queixem de abandono e discriminação do concelho de Vila Franca de Xira. "Não se admirem com a discriminação", diz-lhes. Já antes de abril "eram tratados como a população por detrás da serra". Jerónimo referiu que o governo nega uma resposta a grande parte dos problemas que afetam esta população e lembrou as medidas que desde 2015 "contribuíram para conquistar e repor direitos dos trabalhadores", como por exemplo, a recente conquista do passe social, "que tanto beneficiou os habitantes deste concelho".

E, adverte o secretário-geral que era possível fazer mais não fosse o governo socialista estar refém do "bife do lombo dos interesses do capital" em que "não toca". No áudio desta reportagem pode ouvir Jerónimo de Sousa enumerar todas as empresas que, para o político, fazem parte deste "bife do lombo".

Para combater o grande capital, por exemplo no caso das propostas rejeitadas para evitar a escalada dos preços da energia, gás de botija e combustíveis, o PS teve "o apoio de toda a direita, de forma escandalosa. É o lado dos interesses das multinacionais, que prevalece", afirma.

Quanto à campanha, "se a simpatia fossem votos, o resultado estava feito", mas como não são, o líder do PCP apelou ao voto no próximo dia 26, no bairro da Icesa, em Vialonga, num encontro que começou ao som do grupo "Sons da Liberdade" e da música "Venham mais cinco" de Zeca Afonso, onde Jerónimo de Sousa chegou aplaudido de pé.

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