Paulo Rangel, "o político desde pequeno" que está a conquistar o aparelho do PSD

Eurodeputado está pronto para deixar Bruxelas e sentar-se na cadeira do presidente do PSD na São Caetano à Lapa. A vontade não vem de agora, o trabalho já começou há muito e está a dar frutos nas declarações de apoio por parte de estruturas do partido. Mas chegará para vencer Rui Rio?

Os colegas da escola primária já viam a personalidade política em Paulo Rangel, talvez não imaginassem é que, algumas décadas depois, ele estaria a concorrer para presidir a um dos maiores partidos portugueses e com vista a ser candidato a primeiro-ministro pouco tempo depois. Mais ainda: com reais hipóteses de tal poder acontecer.

Com 53 anos feitos em fevereiro, Rangel bem sabe o que é fazer campanha interna no PSD: foi candidato em 2010 e perdeu para Pedro Passos Coelho numa disputa que contou ainda com Aguiar-Branco. Na altura, Passos levou a melhor, mas a semente estava já lançada para uma eventual ambição futura.

Fã de astronomia, não foi nas estrelas que viu a oportunidade de concorrer à liderança do PSD contra Rui Rio, foi mesmo na estratégia seguida pela atual direção e que não lhe agradou. Isso mesmo sinalizou logo na terça-feira a seguir às presidenciais de 2020 quando, no Público, escreveu que o PSD, como o CDS, tinha de levar a sério "os riscos de voto de protesto se volver em voto estrutural e sistémico", a propósito do resultado de André Ventura.

"A mensagem é ostensiva: só uma oposição sistemática, forte, presente e dotada permanentemente de uma agenda alternativa pode evitar o enraizamento de uma direita radical, de sinal populista", escrevia Rangel dando o primeiro sinal de descontentamento para com Rui Rio que apoiou frente a Montenegro em 2020.

Daí até agora foi um instante, sempre com o nome dele a correr nos bastidores, mas sem qualquer confirmação porque um excelente resultado nas autárquicas poderia dar a Rui Rio uma força impossível de bater, no entanto, o trabalho de medir o pulso ao aparelho esteve sempre lá para Rangel que se desdobrou em aparições durante a campanha.

Imediatamente a seguir às eleições, Rangel frisou num artigo de opinião que os resultados, "mais do que pelos seus valores crus, valem pelo sinal político que transmitem à sociedade portuguesa, à opinião pública e naturalmente aos partidos e aos seus dirigentes e militantes". Ocasião em que também fez questão de vincar que seria "importante" que o PSD voltasse a afirmar e nunca abdicasse "da sua vocação maioritária, pois o risco de erosão progressiva da sua identidade subsiste".

E essa é a linha que se propõe a seguir, procurando "agregar" as várias sensibilidades e olhando para a direita parlamentar, excluindo o Chega, em eventuais acordos.

No posicionamento para a liderança, o segredo, que era daqueles muito mal guardados, só foi oficialmente revelado no Conselho Nacional em que foi feita a leitura dos resultados autárquicos pelo partido. Aí Rui Rio quis adiar a marcação das diretas por causa da então eventual crise política, mas os conselheiros não foram convencidos, saíram sim com a certeza de que Rangel seria candidato para fazer uma "oposição dura, sem ser aos berros e trauliteira", e para que PSD não seja mais "o partido da espera".

"Não podemos ser o partido da espera, não podemos estar à espera que o poder caia, não acredito num PSD que fique no sofá", disse à porta fechada para, imediatamente no dia seguinte, o dizer na apresentação pública da candidatura estipulando um objetivo ambicioso: "Tenho todas as condições para vencer as eleições legislativas de 2023".

Aqui, Rangel ainda não acreditava no chumbo do Orçamento que se veio a verificar, mas a estratégia não muda. De resto, essa tem sido uma crítica de Rui Rio, a de que não se preparam umas legislativas em dois meses, e refutada pelo eurodeputado que até apresentou Poiares Maduro e Fernando Alexandre como autores do programa eleitoral que ele pretende levar às eleições de janeiro.

"O PSD é um partido que está vocacionado para ter maiorias e para ir a eleições tem de estar sempre preparado", disse o candidato numa das muitas ações de campanha que anda a fazer, lembrando a "larguíssima experiência nacional e internacional" que tem. "Não é nem de perto nem de longe a primeira eleição nacional a que me candidato, pelo que [o tempo] é o que menos me preocupa", disse Rangel.

A preocupação é outra: juntar todos os votos possíveis para dia 27 e isso, pelo menos ao nível das estruturas, parece estar a conseguir. O próprio Rui Rio admite que "o aparelho" está com Rangel. Chegará? Não e, por isso, o eurodeputado tem andando de norte a sul, passando pelas ilhas, na conquista de todos os votos que puder porque, se não conseguir a liderança nesta segunda tentativa, dificilmente aparecerá uma terceira.

Para já, os indicadores parecem ser bons, a confiança mantém-se e o facto de ter feito valer as suas ideias em dois conselhos nacionais consecutivos deram-lhe algum élan. No próximo domingo saberemos se o "político desde criança" e que até começou a militância partidária no CDS vai ou não ocupar a cadeira de presidente do PSD e lutar para ser primeiro-ministro no final de janeiro.

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