"Uma questão de higiene." António Oliveira desiste da candidatura à câmara de Gaia

Antigo selecionador nacional diz ter sido sujeito a "pressões, intimidações e ameaças" e admite sentir "vergonha" do que viu no seio do partido em Gaia.

António Oliveira já não é o candidato do PSD à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Numa carta divulgada pelo Observador e a que a TSF também teve acesso esta sexta-feira, o antigo selecionador nacional escreve que ao longo de três meses foi "sujeito a pressões, intimidações e ameaças" e diz não conhecer "este PSD que, em Gaia, está prisioneiro de quem só lhe faz mal, para fazer bem a si próprio".

"Não quis acreditar que fosse possível fazer política com base nos piores princípios da espécie humana. Mas, aqui, em Gaia, no meu partido de sempre, é o que se passa", lê-se também no documento que visa Cancela Moura, presidente do PSD/Gaia e também deputado.

António Oliveira, que diz sentir "vergonha" do que viu, acaba por assumir: "Não quero, não posso e não aceito continuar a encabeçar esta candidatura."

"Isto não é uma desistência. Isto é uma questão de higiene. Uma recusa de pôr os interesses de uns personagens à frente dos interesses dos 300.000 gaienses e pessoas que escolheram este grande concelho para fazer a sua vida", argumenta também o até aqui candidato a Gaia.

Na mesma comunicação, António Oliveira explica que Rui Rio - que o convidou para ser candidato - "não tem culpa do que se passou. Terá sido, como eu fui, uma vítima do aparelho. Terá sido, como eu fui, traído por uma máquina que tudo faz por lugares, cargos e salamaleques".

Ao início da noite, fonte oficial do PSD negava à TSF que António Oliveira tivesse batido com a porta, mas reconheceu o desconforto e a tensão com a estrutura local.

O PSD indicou haver "dificuldades de relacionamento" com a concelhia liderada por Cancela Moura. "Esta é, neste momento, a verdade. Ele [António Oliveira] comunicou [a Rui Rio] que existia essa dificuldade de relacionamento e que já existe praticamente desde o início - queria que ele tivesse conhecimento disso - mas não lhe comunicou que queria desistir ou bater com a porta", indicou à Lusa fonte do gabinete de comunicação.

O gabinete de comunicação do PSD explicou que o ex-selecionador nacional pediu, hoje, uma reunião ao presidente do PSD, Rui Rio, a quem comunicou que havia uma "falta de entendimento" com a concelhia e que isso estava a "prejudicar" a candidatura.

"Mas não lhe comunicou, de modo algum, que ia desistir, ou que queria desistir", reiterou a mesma fonte.

Leia a carta de António Oliveira na íntegra:

"Há sensivelmente três meses, fui convidado pessoalmente pelo Dr. Rui Rio, ​​​​​​​presidente do PSD, para ser candidato à Câmara Municipal de Gaia.

Vila Nova de Gaia é a terra onde vivi muitos anos e onde tenho residência.

Onde residem os meus filhos e os meus netos. É a cidade à qual entendi dar o meu contributo cívico e a minha dedicação pessoal.


O convite do PSD foi algo que muito me honrou. E que, após reflexão ponderada e face à ausência de quaisquer condições na elaboração do programa ​​​​​​​ou das listas concorrentes ao executivo municipal, tive o prazer de aceitar.


Tornei-me militante do PPD - Partido Popular Democrático em 1976, pela mão do Senhor José Maria Pedroto e sob a liderança de Francisco Sá Carneiro.

Um partido de causas, de valores e de gente séria e decente. Ao longo de 45 anos de militância, participei na vida política sempre como militante de base, mas nunca precisei do PSD.

.

Sempre vivi do meu trabalho. Nunca dependi do Partido.


Mas também não sou ingénuo, distraído ou mal-informado. Nunca pensei, porém ,que a política e os partidos, quando se deixam apropriar por alguns, ainda que localmente, pudessem descer a um nível tão baixo e tão miserável.


Ao longo de três meses fui sujeito a pressões, intimidações e ameaças.

Tentaram impor-me o pior da "mercearia partidária" e tentaram envolver-me nas mais inacreditáveis negociatas de lugares. Enfim, quiseram obrigar-me a empregar os beneficiários do rendimento mínimo da política.


Não conheço este PSD que, em Gaia, está prisioneiro de quem só lhe faz mal, para fazer bem a si próprio. Não quis acreditar que fosse possível fazer política com base nos piores princípios da espécie humana. Mas, aqui, em Gaia, no meu partido de sempre, é o que se passa.


Ao longo destes três meses, nunca vacilei, nunca negociei e nunca tremi.


Hoje, com vergonha do que vi, com uma imensa dor de alma pelo que senti, tenho que dizer que: não quero, não posso e não aceito continuar a encabeçar esta candidatura.


Isto não é uma desistência. Isto é uma questão de higiene. Uma recusa de pôr os interesses de uns personagens à frente dos interesses dos 300.000 gaienses e pessoas que escolheram este grande concelho para fazer a sua vida.


Não vou nomear responsáveis, culpados ou traidores. Infelizmente são os mesmos que já vem a prejudicar o partido há anos demais.


Mas deixo uma palavra ao Dr. Rui Rio, a pessoa que me convidou para o desafio que abracei com todo o entusiasmo e com a maior das motivações:


Teria sido possível apresentar um excelente projecto para Vila Nova de Gaia, oferecer uma alternativa de governo aos cidadãos e levar a cabo uma campanha vencedora. Gaia Merece muito mais do que tem tido com estes executivos liderados pela atual maioria.


O Dr. Rui Rio não tem culpa do que se passou. Terá sido, como eu fui, uma vítima do aparelho.

Terá sido, como eu fui, traído por uma máquina que tudo faz por lugares, cargos e salamaleques.


Quase sem exceção, estamos a falar de gente sem nome, sem mérito e sem profissão.


Eu não preciso disto para sentir que dou um contributo à sociedade.

Eu não preciso disto para agradecer ao meu país tudo o que ele foi capaz de me dar.

Eu não preciso desta política. Com certeza encontrarei outros projetos de participação cidadã, talvez até em Gaia, em que possa saudavelmente ter um papel pleno e sério.

Preciso muito mais de sentir e de ser fiel aos meus valores.

Preciso muito mais de não transigir na minha dignidade."

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