Urgência do hospital de São João
Coronavírus em Portugal

"Antes era sempre noite." Agora o hospital de São João respira de alívio, mas "expectante"

"Antes era sempre noite, sempre noite, sempre noite." A frase de Cristina Marujo prova como já é desassombrada a forma como a pandemia embateu, quase como um choque, no corpo robusto do hospital de São João. "Chegou no inverno, não é? Acho que tudo ajudou: era o escuro, nós entrávamos cedo e saíamos à noite. Quase não podíamos sair daqui na fase inicial, foi muito complicado."

A profissional de saúde trabalha há 17 anos no serviço que hoje é uma porta de entrada dos doentes Covid. Já desembaraça num ápice as proteções de rosto, olhos, pés e cabelo que o vírus não se atreve a ultrapassar. Está sempre blindada, mas sem peso de grilhões, tal é o grau de familiaridade com que caminha sobre camadas de plástico azul. Entre máscaras começa também a ver luz, ao fundo de uma noite com aparência de interminável.

Já não é como no início, quando emocionalmente pesava "o facto de os doentes estarem sozinhos", e a confusão era tal que desenvolver métodos para conversar com os acompanhantes parecia uma tarefa hercúlea. "Rapidamente resolvemos esse problema, felizmente. Era importante. Vamos tentando manter os pacientes em contacto com os seus acompanhantes. Agora já entram alguns deles, em situações particulares."

Houve períodos até em que a carga emocional "tão grande" exigia uma gestão labiríntica e intrincada. "Havia um cansaço muito grande, e depois era o receio: como é que isto vai evoluir? Nós tínhamos as imagens de Itália e de Espanha, que eram catastróficas, mas nós nunca tivemos isso aqui..."

Cristina Marujo tem de contar com os dedos os pacientes na ala para suspeitos e infetados com Covid-19 nas urgências do hospital de São João, que chegou a albergar 30 pessoas ao mesmo tempo. O olhar percorre rapidamente as camas, algumas vazias, e demora-se quando encara de frente as cortinas que evitam pôr a descoberto Maria Madalena, os movimentos cheios de cor num contraste de horizonte branco de hospital. Com a idosa, octogenária, são 12 os utentes que aguardam para fazer testes ou receber os resultados que poderão ser o livre passe para outro andar do edifício.

Maria Madalena chegou do lar para idosos onde vivia e faz por deixar todos de sobreaviso. A pele tem pregas com que o tempo a agraciou, mas a voz força-se a ser viva e clara para expressar que ali não é lugar para se estar. Tosse, mas garante que não há motivos para uma morada transviada. A demência é uma das características mais comuns dos pacientes que chegam às urgências, e a desorientação só aumenta diante dos verdes e azuis dos fatos que embrulham pessoas.

Os gemidos da idosa tornam-se mais audíveis e insistentes. Cristina Marujo garante-lhe que está tudo bem, mas ainda não é tempo de voltar a casa. A acalmia sente-se na voz e no desembaraço com que a diretora do serviço percorre o terreno que há mais de 11 meses o vírus começou a galgar naquela unidade.

"Neste momento, estamos um bocadinho como estivemos a seguir à primeira vaga, um momento em que houve uma diminuição, tanto em termos de doentes Covid como em termos de doentes não Covid." Mas, naquele que é um dos principais hospitais do país e o maior da região Norte, há sempre muita afluência de doentes. "Claramente notámos uma redução dos doentes suspeitos de terem Covid aqui no hospital de São João e que agora se está a notar." Cristina Marujo diz que se trata de uma fase de expectativa, uma espécie de compasso de espera antes de compreender o que trará o desconfinamento.

O hospital de São João não sentiu o impacto avassalador da terceira vaga como as unidades de saúde mais a Sul. Não houve, nesta terceira onda, um pico tão elevado de casos. "Tivemos um dia de mais de 300 doentes, o que foi terrível para lidar", lembra a diretora do serviço de Urgências.

"Nunca tivemos um cenário como o que víamos nas televisões. O problema é que nós não sabíamos se o íamos ter. Até percebermos que estávamos a conseguir controlar a situação, foi muito complicado... Todos os dias era um dia diferente. 'Como é que vai ser? Como é que vai ser? Como é que vai ser?'" Ainda não há respostas certas, mas sabe-se que lá fora se conquista o tempo de que todos precisam.

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