Beijinhos, poejos e telemóveis na rádio dos maiores de idade

É uma rádio digital feita por pessoas mais velhas. A Webrádio, da União de freguesias de Santa Iria da Azóia, São João da Talha e Bobadela, junta a tecnologia e a comunidade para "criar afectos e ligar" gerações contra o desânimo e a solidão.

"Antigamente, o telemóvel era para falar e mandar mensagens de Whatsapp. Agora, sei que faz mais coisas", afirma Josefina, 65 anos, que se sente "um pouco crua" nas aulas da Webrádio, em São João da Talha, às portas de Lisboa.

Fernanda Vargas, 69 anos, lembra que ia ao Facebook para as "cusquices", mas hoje, como todos os alunos da Academia Senior que participam na Webrádio, consegue usar o telemóvel para enviar e receber emails, fazer gravações, entrevistas e até trabalhar o som e a imagem.

O formador António Galambas admite que "trabalhar com gente desta idade não é a mesma coisa, porque têm algumas dificuldades em usar a tecnologia". Além disso, alguns alunos confidenciam que "a solidão fazia parte da vida deles". É o caso de Toni Costa, que com 75 anos, vive sozinho, mas encontrou na Webrádio uma forma de "falar abertamente, estar à vontade para lidar com as pessoas. Obrigou-me a desinibir mais", confessa.

Nos 68 anos que leva de vida, Rosário Veiga conta com "30 e tal" a morar na freguesia de São João da Talha e "não fazia vida de comunidade", até se reformar e entrar na Academia Sénior. Agora, conhece o presidente da Junta de Freguesia e "todos os que me rodeiam. Estamos mesmo inseridos na comunidade com este projecto", garante. O autarca, Nuno Leitão, acredita que a Webrádio "tem dado muito ânimo" a estes seniores, cumprindo-se o objectivo de "criar afectos e ligar projectos" entre gerações, uma vez que as aulas acontecem num espaço contíguo à escola da freguesia.

O jovem de 20 anos, Israel dos Santos, participa na Academia Senior como estagiário e tem aprendido com os mais velhos - "principalmente a paciência", tantas são as perguntas que lhe fazem sobre a tecnologia, conta divertido. Mas entre os alunos, alguns como Joaquim Sanches, estão mais avançados. A partir do computador em casa, "posso interromper a emissão", revela, apesar do conflito na Ucrânia o ter levado a resguardar-se, já que sofre de stress de guerra pós-traumático. Ainda assim, para Joaquim, 73 anos, a Webrádio "ajuda-me a passar o tempo, principalmente à noite". É com a rádio digital que "procuro ocupar o cérebro com coisas que desligam do passado".

As histórias e personalidades da freguesia, os hábitos e costumes merecem destaque na Webrádio, com uma programação de música e informação local, resultado do trabalho dos mais velhos. No site, encontra, por exemplo, o projecto dos beijinhos de Josefina, que venceu a vergonha. "Andei a pedir beijinhos", recorda entre risos. Na mesma altura, Fernanda foi para a cozinha da junta de freguesia para mostrar como se faz um licor com poejos e aguardente. A receita também está disponível na rádio digital, depois de ter servido para um brinde do grupo, com biscoitos à mistura. Afinal, nesta rádio feita por maiores de idade, celebra-se uma lição sublinhada por António Galambas: "Não devemos desistir de nada. Acreditar é tornar possível. Estas pessoas acreditam e enquanto nós acreditarmos, é sempre possível."

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