Confusão nos medicamentos dos idosos de Reguengos durou mais de 20 dias

Relatório da Ordem revela que dois médicos e dois enfermeiros viriam a demorar dois dias a organizar medicamentos no lar afetado com surto de Covid-19.

Os médicos que trataram os idosos com Covid-19 no lar de Reguengos de Monsaraz passaram bem mais de uma semana a alertar os superiores hierárquicos para as "péssimas condições" que existiam na instituição e o plano de administração de medicamentos para as doenças crónicas só começou a ser feito mais de 20 dias depois do surto ter sido detetado.

É isso que se conclui do relatório feito pela Ordem dos Médicos, a que a TSF teve acesso.

O surto, recorde-se, começou por ser detetado a 18 de junho e logo nesse dia o médico e os cinco enfermeiros chamados relatam más condições para fazer mais de uma centena de colheitas, o que impediu que fosse possível concluir a tarefa.

No dia 19 há relatos de poucos equipamentos de proteção individual na Unidade de Saúde Familiar que acompanha o surto e no dia 20 ainda há alguns doentes infetados "misturados" nos mesmos corredores e áreas comuns, com casas de banho partilhadas. Os utentes não usam máscara.

No dia seguinte, 21 de junho, os médicos que fizeram a avaliação inicial dos utentes do lar infetados reportam à direção do agrupamento de centros de saúde e à Autoridade de Saúde Pública, através de e-mail, "as péssimas condições existentes na instituição para prestação de cuidados aos utentes infetados".

Dia 23, cinco depois da deteção do surto, os equipamentos de proteção individual eram demasiado pequenos - pondo em risco a saúde dos profissionais de saúde -, faltavam circuitos definidos para doentes infetados e os doentes continuavam sem qualquer tipo de máscara.

Os cuidados possíveis

No dia 25 há uma reunião com o agrupamento de centros de saúde que segundo o relatório da Ordem dos Médicos reconhece a falta de condições, mas acrescenta que mesmo assim os médicos têm de continuar a prestar os "cuidados possíveis" aos doentes do lar.

Dois dias depois, a 27, é chamado o presidente da administração regional de saúde do Alentejo, José Robalo.

Os sintomas de vários doentes continuam a agravar-se e no final do mês, dia 29, é referido que "sistematicamente as equipas médicas alertam as autoridades competentes de que não dispõem das condições necessárias para tratar os doentes de acordo com as boas práticas clínicas".

A partir do final de junho os relatos de falta de meios e condições diminuem, mas mesmo assim ainda há relatos de vários problemas até dia 10 de julho.

Semanas de desorganização nos medicamentos

Além da falta de máscaras e da desorganização dos medicamentos para as doenças crónicas dos idosos, o relatório revela que no meio da confusão vários doentes estiveram "alguns dias" sem tomar os medicamentos habituais. Entre eles um medicamento diário para evitar tromboses ou insulina para a diabetes.

A 24 de junho "vários doentes" referiam aos médicos que há "vários dias" que não lhes era administrada a medicação habitual.

Outro fato relatado pelo relatório da Ordem dos Médicos é que só no dia 10 de julho é que um médico de medicina geral e familiar, um médico das Forças Armadas e dois enfermeiros começaram a organizar a medicação de todos os doentes.

Segundo o relatório, nesse dia, ou seja 22 dias depois do surto ter sido detetado, "os blisters vindos da farmácia encontram-se todos amontoados numa mesa, alguns abertos, com variados comprimidos fora dos blisters e caídos na mesa. Verificam ainda que em várias ocasiões houve medicação que não foi administrada a múltiplos doentes. Passam várias horas a separar tudo por quartos, a arrumar os blisters e a confirmar as medicações".

Só aí, numa tarefa que demorou dois dias a ser concluída, é que se inicia a construção de um plano de administração diário de medicamentos aos utentes do lar de Reguengos de Monsaraz onde, na sequência deste surto, morreram 18 pessoas com Covid-19.

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