Gafaria, as quarentenas da época medieval

A história regista várias pandemias e na época medieval os leprosos eram enviados para as Gafarias, espaços construídos perto de falésias onde eram deixados os doentes que não sobreviviam.

Na freguesia de Outeiro, em Montalegre, existia uma gafaria - que cruza a Grande Rota do Gerês - e ainda hoje são muitas as superstições e estórias à volta daquele espaço

A torre formada por três penedos marca o lugar onde na época Medieval eram deixados os leprosos que tinham que cumprir quarentena. As árvores ocuparam todo o terreno, mas a história e as lendas sobreviveram ao passar do tempo e ainda hoje são muitos os pastores que temem passar por aqui.

Maria Carronda é guia de montanha e conta que "hoje em dia as gafarias são enfermarias onde se põem os doentes, mas antigamente era nas gafarias que se deixavam os mais velhos com lepra, com pestes ou doenças ou pandemias... eram deixados aqui para morrer. Normalmente ficam perto de um penhasco, com rio, porque quando a pessoa morria o corpo era atirado ao rio. Antigamente diziam que a água levava tudo".

Histórias que faziam parte dos serões na aldeia de Outeiro, em Montalegre, como conta Miguel Martins, que acompanha a visita. "O meu avô contava que o filho de um senhor já velhinho e doente levou o pai para cumprir quarentena, levou mantas para se agasalhar, mas quando se despediu o pai devolveu a manta e disse para o filho as trazer, porque lhe podia acontecer o mesmo e as mantas podiam fazer falta". Fernanda Martins também faz parte do grupo que nos guia nesta visita, junta-se à conversa e completa a história. "Quando o filho deixou o pai, este disse para dividirem a manta. 'Filho és pai serás, conforme fizeres assim encontrarás'. Então o filho pensou e trouxe o pai para casa, porque pensou que um dia podiam fazer-lhe o mesmo. Dizem que foi assim que deixaram de levar os mais velhos para o monte".

Certo é que ainda hoje são muitos os que fazem desvios para não ter que passar por aqui. No local onde há séculos existiu uma gafaria, temos agora um Tor, blocos de granito empilhados. "Antigamente para construirem as casas precisavam de pedra e por várias vezes tentaram derrubar estes penedos e nunca conseguiram... Diziam que aqui havia diabo, porque como nos serões se ouviam as histórias de que aqui eram deixados os mortos abandonados. Veem-se as marcas dos picos ali na pedra, mas nunca ninguém conseguiu derrubá-los. Além disso, o caminho é uma encruzilhada, faz cruz e muitos pastores não gostam de passar aqui durante a noite, têm medo", conta Fernanda Martins.

Perto do Tor existe uma aldeia medieval abandonada, São Vicente do Juriz, que também terá sofrido pela proximidade à gafaria, como explica Maria Carronda, da associação Mountain Riders.

"A aldeia está abandonada e já tomada pela vegetação, com carvalhos seculares que cresceram dentro das habitações, nota-se ainda os arruamentos. Esta aldeia deu origem a Pitões das Junias e os únicos registos são do tempo das inquirições afonsinas, os registos dizem que a aldeia foi abandonada por causa de uma peste. O facto de existir aqui uma gafaria, pode mostrar que existe uma interligação entre estes dois locais".

Estórias que fazem parte da história, no entanto, não há registos oficiais que liguem o desaparecimento da aldeia de São Vicente de Juriz à existência de uma peste. Quem quiser visitar esta aldeia abandonada deve partir de Pitões das Júnias. Para ver o Tor e o local onde existiu uma gafaria deve seguir oTrilho da Portela da Fairra, com partida e chegada na aldeia de Parada, freguesia Outeiro, Montalegre.

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