"Maldade ao Alviela." Incêndio fez a espuma voltar ao rio
Poluição

"Maldade ao Alviela." Incêndio fez a espuma voltar ao rio

Ainda não eram sete da manhã e quem passasse sobre a ponte romana, em Pernes, conseguia ver a espuma branca que quase tapava por completo a água do rio. Tinham feito "uma maldade ao Alviela".

Quem por lá vive já perdeu a conta às vezes em que, ao amanhecer, a água do rio fica escondida por um manto de espuma branca. É assim desde o final da década de 1950, do século passado, com o desenvolvimento da agropecuária e quando a industria dos curtumes substituiu os métodos tradicionais por produtos químicos.

Com os anos, a poluição agravou-se. Houve protestos. Em 1976, nasceu a CLAPA- Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela. Com a construção da Central de Tratamento de Águas Residuais de Alcanena, em 1988, que passou a receber as águas poluídas da indústria de curtumes sediadas em Alcanena, Vila Moreira e Gouxaria, houve algumas melhorias. Mas, as descargas frequentes, quase sempre "pela calada da noite" mataram a vida no Alviela.

Na sexta-feira passada voltou a acontecer. A Agência portuguesa do Ambiente (APA) identificou o responsável.

Escorrências poluíram a água

Numa nota enviada à TSF, a APA explica que não foi feita a contenção de escorrências na sequência de um incêndio num armazém de produtos químicos e detergentes em Moitas Vendas, Alcanena (Santarém).

No dia do incêndio, explica, choveu bastante e foram as escorrências provenientes do edifício do armazém que acabaram poluir a linha de água.

De imediato, garante a agência, foram tomadas medidas de urgência para reter e encaminhar essas escorrências para tratamento na ETAR municipal.

A agência conclui a nota enviada à TSF adiantando que, na terça-feira, a fiscalização da APA voltou ao Alviela e constatou que apenas era possível ver alguns vestígios de espuma no rio, imediatamente a jusante da empresa onde houve o incêndio.

Mais "uma maldade ao Alviela"

O presidente da CLAPA conta que ainda não eram sete da manhã. Quem passasse sobre a ponte romana, em Pernes, conseguia ver a espuma branca que quase tapava por completo a água do rio. Mais uma vez, diz José Gabriel, tinham feito "uma maldade ao Alviela". Acrescenta que "é sempre assim se chover muito, se houver um evento desportivo ou alguma coisa que capte a atenção, os prevaricadores aproveitam para fazerem mal ao rio".

Já houve tempos em que havia concursos nacionais de pesca no Alviela, em que os agricultores pagavam para poder usar a água do rio. Já houve tempos em que a água do rio servia para lavar a roupa, para tomar banho.

Outros tempos. Agora, diz José Gabriel, "à exceção da nascente e dos olhos de água, o rio Alviela está ao abandono e é por isso que as descargas de resíduos continuam a ser feitas".

A memória da espuma

Na década de 70, do século passado, quando a CLAPA foi oficialmente fundada, a indústria dos curtumes usava o crómio na curtimenta de peles. A poluição do rio atingia proporções difíceis de imaginar, mas que estão documentadas em fotografias do arquivo da associação.

A espuma saía do leito do rio, invadia as margens e impedia as pessoas de saírem de casa. José Gabriel conta que há relatos de que os bombeiros eram muitas vezes chamados para ajudarem a dispersar a espuma espessa que chegava a atingir "três ou até quatro metros de altura". A poluição era tão forte que tudo o que era metal ficava preto.

A morte lenta do rio, o cheiro nauseabundo foi, a pouco e pouco, afastando as populações. Nas zonas ribeirinhas, em Alcanena, Pernes ou Vaqueiros, "quem podia vendeu as casas e fugiu da poluição" diz José Gabriel.

A CLAPA defende que é preciso colocar o Alviela sob vigilância permanente. O rio precisa de "guarda-rios como de pão para a boca", diz, acusando o ministério do Ambiente, mas também o ministério da Agricultura, de não cumprirem o normativo ambiental de forma a impedir uma repetição incessante de agressões.

A bacia do Alviela, lamenta José Gabriel, é agora uma região empobrecida. Há menos indústria, menos comércio, menos habitantes e a região nunca foi compensada pelos danos ambientais que sofreu ao longo de décadas.

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