Médicos alertam para a necessidade de plano outono/inverno de combate à Covid-19

Com os números da infeção a aumentar em Portugal, o plano de combate para o outono/inverno é visto como um instrumento crucial para combater o novo avanço da pandemia em Portugal.

O antigo diretor-geral da Saúde Constantino Sakellarides considera que o poder político não tem ouvido os conselhos dos especialistas em Saúde Pública. No Fórum TSF desta sexta-feira, o antigo responsável da DGS considerou que falta uma estratégia de combate à Covid-19 para o outono e inverno, que estão à porta.

"A contingência de dia 15 [de setembro] foi decidida no mês de agosto para todo o país e não temos uma relação direta entre uma situação epidemiológica explícita, conhecida pelas pessoas e referenciada localmente, e a determinação deste estado de contingência", assinala.

O plano para o outono e inverno está prometido. "França e Inglaterra publicitaram os seus planos de outono/inverno em julho, nós estamos a três dias do outono e não temos plano", critica Sakellarides, que acrescenta que Portugal também não tem uma "estratégia que comece na primavera, se prolongue no verão e, naturalmente, se prolongue para o outono e inverno".

Questionado pelo jornalista Manuel Acácio, o antigo líder da DGS refere que, para que exista uma estratégia, Portugal tem de ter "aconselhamento científico adequado".

"O Conselho Nacional de Saúde Pública foi suspenso em março quando emitiu uma opinião de que as escolas não deviam fechar todas - quando tínhamos 80 casos por dia -, mas deviam fechar de forma diferenciada e de acordo com o risco que, de facto, existia nessa comunidade", assinala Sakellarides.

Este conselho, suspenso por decisão do Governo, "devia ter sido substituído" por outro dispositivo de aconselhamento "estruturado, contínuo, independente e relacionado com a ação através de um planeamento estratégico".

Bastonário lembra chegada da gripe

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, também identifica a necessidade de uma estratégia "muito bem planeada e organizada" para os próximos meses.

"O Serviço Nacional de Saúde vai estar sob stress porque já está a tentar recuperar os doentes não-Covid que ficaram para trás", explica Miguel Guimarães, que lança desde já que vem aí a gripe.

O bastonário apela à toma da "importantíssima" vacina contra a gripe porque "não só protege da gripe, como há alguma evidência de que pode dar alguma proteção contra a Covid" e apela ao "uso de máscara" para combater a pandemia.

Números começaram a aumentar antes do previsto

O presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, alerta que é preciso rever a resposta à pandemia e reconhece que a escalada da doença aconteceu de forma mais rápida do que o que se esperava. "Antecipávamos que, perante a retoma da atividade letiva, o regresso de férias, a chegada do outono/inverno e a maior circulação de vírus respiratórios, os números fossem aumentar."

Os números aumentaram "ainda antes" do que era esperado e chegaram agora a um "patamar bastante mais elevado do que antecipado", o que revela um "potencial para evoluir negativamente" que não pode ser ignorado.

Para combater a pandemia, e embora identifique aspetos a melhorar na resposta portuguesa, Ricardo Mexia lembra o papel de cada cidadão.

Com o estado de contingência no terreno, é preciso reforçar a "resposta do ponto de vista dos sistemas de informação, recursos humanos e dispositivos médicos".

O papel individual de cada um é "cumprir as regras de forma a reduzir a disseminação da doença", mas Ricardo Mexia sublinha a necessidade de reforçar a capacidade de resposta e reconhece que "era importante" que o plano de inverno estivesse no terreno "o quanto antes".

Estão confirmadas 1894 mortes devido à Covid-19 em Portugal, mais seis do que esta quinta-feira.

O número de pessoas infetadas pela doença é agora 67.176, mais 780 do que nas últimas 24 horas. Há, neste momento, 20.229 casos ativos.

*com Manuel Acácio

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