Rua 31 de Janeiro, Porto
crise pandémica

Um Porto "triste" de ruas e lojas vazias. "Nem um 'bom dia' digo a alguém"

Quem vive no Porto há décadas sente que não o reconhece. Quem depende do turismo da cidade tem vivido momentos de aflição. Histórias de comerciantes que tiveram de começar do zero mas ainda têm muito medo do futuro.

"Só uma crise - real ou pressentida - produz uma mudança concreta." Capitalismo e Liberdade, escrito como um eco da memória da Grande Depressão, em plenos anos 1960, respondia a grandes hecatombes macroeconómicas com um mercado livre e uma interferência governamental mínima. É a sexta vez que os pensamentos de Miton Friedman atravessam os dias de Henrique Vidal. Páginas e anos volvidos, as palavras da obra de 1962 voltam a ser a rua em que a realidade se atropela. A resposta para a crise real não coube nos livros que leu entre 19 de março e 4 de maio, um mês e meio marcado pela paralisação total do comércio.

Procura-a agora entre berloques, missangas, veludos púrpura, collants escuros, anéis e outros adornos. O ambiente rocambolesco da loja Novo's, onde se amontoa a excentricidade do vestuário de outras décadas e das pequenas etiquetas marcadas a centenas de euros, evoca o caráter cíclico das modas, dos gostos e dos tempos. "Quando abri, em 1973, era tudo novo. Ainda hoje é diferente. Faço peças bonitas, Coco Chanel, anos 1920..."

Nos tempos áureos, "entre 1980 e 1990", o comerciante chegou a ter 23 funcionárias a trabalhar no negócio. Henrique Vidal tem 79 anos - "quase 80" -, 47 dos quais dedicados a produzir roupa "de classe para mulheres". É com orgulho que apresenta, peça por peça, pedaços de um ilusionismo nostálgico que não se conquista com qualquer carteira. Nos últimos anos, 50% do volume de negócios era feito por estrangeiros, na perspetiva do proprietário, não "por uma questão de dinheiro, mas de mentalidade".

A pandemia tem um travo desagradável, veio acentuar a desintegração cósmica do sonho. Mas moram resíduos de memória na poeira estelar da roupa de cinema. "O negócio caiu 99% desde o dia 14 de março. A partir de novembro, todos os negócios já tinham caído. Dezembro foi fraco, janeiro também, e as coisas estavam a arrebitar em fevereiro, mas veio a pandemia e a guerra que nos declararam nas viagens de avião..."

"Não fiz nenhum negócio em maio. Em junho tive uma compra, ou outra, maior. Vendi uma máscara hoje... Ontem vendi uma saia indiana." É uma contabilidade amarga que endurece o tango chorado, ouvido ininterruptamente no espaço esguio onde cabe um universo feliz. Já poucos clientes o visitam, mas Henrique Vidal assegura que é sem medo que o fazem. Os raros transeuntes chegam com proteção no rosto, mas não podem mascarar os bolsos vazios. "De 4 a 31 de maio, fiz um dos meses mais fracos de sempre. Ainda estamos a sofrer o impacto da última crise. Eu reduzi para 20% a produção depois de 2012. Agora o rendimento nunca é certo."

Nenhuma crise deixou cicatrizes tão fundas, ou, pelo menos, nenhuma das que ainda recorda. "Daquele lado está tudo fechado. O oculista [Soares Ótico] funciona de forma fantástica. Com o uso da internet, os miúdos estão todos com problemas de visão." Henrique Vidal olha para a rua da Fábrica, no Porto, com uma vasta compreensão geográfica e um apertado sentimento de solidão. A falta de turistas desacelerou o passo às horas mortas. "Havia quem dissesse mal dos estrangeiros, mas eu não. Era com eles que fazia negócios..."

"Agora fecho mais cedo, já não há gente aqui. Atravesso de um lado ao outro da praça sem problemas. Não há pessoas, nem trânsito há!" É sexta-feira, mas já nenhum dia é sexta-feira. Todos os cantos da baixa portuense contrastam com a descrição digna de um poema por Henrique Vidal: "As raparigas puxavam as saias e berravam, por aí acima."

O comerciante está a "aguentar-se"a duras penas, com os malabares do negócio num - apenas - aparente equilíbrio. "Não pago a ninguém. A banca vai esperar, a fornecedora de luz não espera, mas facilita. Pago mais de 500 euros de seguro, por ano, e não aguento. tenho de pagar metade no próximo mês e não sei como vai ser..."

"Não sei como vai ser o futuro... Eu pago dois contadores, são 300 euros por mês, é difícil... Tão cedo não vai melhorar, e o comércio de rua é histórico no Porto." A história imprime-lhe o peso da responsabilidade: são dois papéis amarelecidos na vidraça da montra que o provam. Um derrete-se de saudades de um tempo em que o Porto era a arena da revolução liberal; o outro, um poema - "Pedra Filosofal" -, de António Gedeão, é uma ode ao idealismo. Os "eles" que "não sabem nem sonham/ que o sonho comanda a vida" são "elas", numa alegre transmutação sem alquimia. Henrique Vidal quer demonstrar que o elixir da longa vida perdura. "Estou a perder milhares, mas eu tenho 80 anos e vou morrer aqui."

Regresso ao passado ou um monopólio de lojas de rua

"Ainda se lembra de uma sexta-feira à tarde no Porto?" É uma pergunta que perde a força assim que proferida. Há 53 anos que se ofendem, desta pretensa e reclamada "nova normalidade". José Alves trabalha há mais de cinco décadas na livraria com o seu nome, na rua de Aviz. Mas não há respostas nas colunas do denso calendário nem nas linhas dos livros técnicos para os novos exercícios do quotidiano. "Sei que é muito difícil para nós comerciantes, porque, apesar de haver apoios, eles são insuficientíssimos."

O comércio costuma ser "fraco" nos primeiros três meses do ano, reconhece o proprietário da Livraria José Alves, mas depois o fenómeno anticlimático precipitou cenários mais dramáticos. "Em março, logo nos primeiros 15 dias, o negócio estava a ser um desastre, já não havia movimento", conta o comerciante.

Em regime de lay-off simplificado, José Alves foi forçado, tal como muitos outros empresários em Portugal, a tomar decisões difíceis. "No primeiro mês, tive de adiar todos os pagamentos. Depois recebi 70% de uma ninharia, são cento e poucos euros. Um comerciante que não tenha um fundo de maneio... Recorre à banca, mas terá um problema mais lá para a frente..."

Depois de um mês e meio de portas fechadas, só agora em julho começa a ver passar "alguns estrangeiros e alguma juventude", mas assevera que "isso não trará um grande movimento" ao seu "tipo de comércio". Livros de economia, gestão, informática, ciências biológicas, arquitetura e engenharia não são uma prioridade num mundo de universidades e escolas a funcionar a partir de uma sala de aulas digital.

À quinta-feira, lembra, à conversa com a TSF, o Porto era um ricochete de gargalhadas maiúsculas e de frases excessivas, que fazia justiça a um poema de Filipa Leal. "Vem à quinta-feira/ É quase fim de semana e podemos, talvez, beber uma cerveja (...)/ Vem à quinta-feira/ A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do emprego,/ e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare/ de acabar tão depressa."

"A quantidade de pessoas foi do 80 ao oito. Às sextas-feiras as ruas enchiam-se de jovens que queriam ir aproveitar a noite. Alguns até dormiam nos carros. Cheguei a ter janelas partidas devido ao vandalismo..."

A memória dos excessos tem a frescura da véspera, mas os sinais da mudança envelheceram de uma forma mais veloz do que o esperado pelo comerciante de 69 anos. "Tenho um cliente que costuma vir cá à sexta-feira. Ele pediu-me para guardar um livro, mas agora vim a saber que ele é doente e que o médico o aconselhou a não sair de casa." É preciso, como escreveu Saramago, "voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles", é preciso "recomeçar a viagem". Sempre.

José Alves espera que o espírito de viagem desponte dos lugares há muito preteridos: as lojas de rua." A pandemia veio provar que a curto e a médio prazo o comércio de rua será o comércio por excelência e não os centros comerciais", defende o empresário.

"Telefonar ao patrão ao final do dia e dizer que vou a zeros custa muito"

Benvinda Araújo, 53 anos, teme pelo futuro. Há pensamentos que lhe fazem companhia, debruçada no balcão da sapataria CartBel, de onde se avista o horizonte dos dias que não querem passar. "A gente tem consciência. Se não entrar nada na gaveta, eles não têm dinheiro para nos pagarem..."

Depois, caem-lhe nos ombros as contas, em catadupa, com peso e gravidade: "Numa semana, estive quatro dias a zeros. Mas gasta-se luz, água, produtos de limpeza..." Não há passos em volta, apenas sapatos estagnados cujo único esforço de aproximação é força de números minguantes. E todos os dias vê as esperanças mirrarem: "Dói muito. Uma pessoa fica doida da cabeça. Claro que pensamos no futuro, no que vai ser... Se não entra dinheiro mas gasta-se, não há futuro."

Foi há um ano e meio que arranjou trabalho na sapataria e só pede que as pessoas tenham cuidados com o que custou a conquistar a tanta gente. Concorda com o primeiro-ministro: o país não resistirá a um novo confinamento. "Se isto volta a ir para trás, se isto volta a fechar tudo, a maior parte das casas não volta a abrir. Não há ninguém que aguente."

Em maio, o patrão ensaiou uma reabertura, mas foi insustentável, relata. "Foi só este mês que o meu patrão me chamou para trabalhar a tempo inteiro, porque passam dias e dias e dias e eu nem um 'bom dia' digo a alguém. Uma pessoa sai daqui mais cansada do que se estivesse a trabalhar como estava."

Agora, passa os dias sozinha a contemplar uma baixa "sem vida", de um Porto "totalmente diferente" que lhe "dói". As "multidões pela cidade acima, a partir das cinco da tarde, o barulho e confusão" abriram passagem a pouco mais de "uma dúzia de pessoas". O mês de julho trouxe, no entanto, pequenos sinais de estar a acordar um Porto estremunhado. "Este mês já se vai notando mais afluência nas ruas, as esplanadas estão mais cheias, nota-se a diferença", reconhece a comerciante.

Mas a recuperação é lenta e os grandes polos do comércio do Porto "Na rua 31 de janeiro, nota-se que praticamente todas lojas estão fechadas. Vê-se apenas meia dúzia de lojas abertas. Há dias, tive de descer por lá e assustei-me. Deu-me medo ao ver aquela rua naquele estado, era uma das melhores ruas que tínhamos no Porto... Aquilo está morto, completamente morto."

Começar do zero

É na 31 de janeiro, símbolo do orgulho liberal e da defesa dos ideais democráticos, que a TSF encontra Gervásio Freitas, de 70 anos, descrente do amanhã do país que no Porto tantas vezes se cumpriu. "Uma quebra de 90%", suportada por um lay-off "que não dá para nada", deixa o Bazar Bruna a transbordar de malinhas e relógios de cortiça, que pendem da montra. Abanam, abanam, mas não tilintam entre mãos curiosas. Os passos e os rostos escasseiam, são aparição rarefeita.

Há 25 anos que ali estão, marido e mulher, e nunca como hoje permanecer foi um ato de resistência. "Muitas lojas têm fechado, e outras ainda vão fechar. Umas ainda estão a beneficiar do lay-off simplificado, mas, acabando, vão mesmo fechar. Enquanto não houver a força de turismo que havia..."

"Lá vamos continuando, porque isto é uma empresa familiar. Eu e a minha mulher somos os donos e não temos empregados, é o que nos vale. O prédio é nosso e não pagamos renda." Assim que Gervásio Freitas termina a frase, sente-se mal pelas palavras ditas. É que a realidade é mais dura para os que o rodeiam. "Temos sentido que há pouco movimento de pessoas, não há turistas, não há poder de compra, não há nada. Se um comerciante não tiver um mealheirozinho guardado, não consegue vencer esta crise."

Era só chegar a julho e agosto que o Porto prosperava. Agora o septuagenário mal reconhece esta "cidade muito pobre e muito morta", de pulso revolucionário e esperança abalada. "A economia não vai recuperar em pouco tempo, infelizmente... Vai demorar dois ou três anos..."

É por isso que Mateus Batista, proprietário da loja Sanky, tem de recomeçar, aos 74 anos. Com o disco "a morrer", tenta vender instrumentos musicais e t-shirts de grandes bandas de rock, mas poucas vezes faz negócio, as quebras já rondam os 80%, garante. "Não se vê ninguém nas ruas, muito menos com sacos." E por isso recomeçar, se puder, com pressa. "Abriu-se a loja para se dizer que se abriu, porque as vendas são quase zero. É começar quase do zero..."

Os fadinhos tristes e os fados cheios acumulados nas prateleiras cantam e silenciam a tristeza, porque o Porto era também mundo antes de se lhe habitar o submundo da pandemia. "Os meses de julho e agosto costumam trazer muitos turistas. O movimento começava às quintas-feiras, com a vinda de espanhóis para o fim de semana. Eram dias muito bons. Estes são sempre meses muito fortes, mas agora é raro ver-se turistas. "

A baixa do Porto, tal como a de Lisboa, estava dependente dos turistas. No caso da Sanky, grande parte das vendas envolve dinheiro estrangeiro. A música não pára, o sol inaugura o fim de semana, mas já nenhum dia é sexta-feira. "Agora qualquer dia é um dia perdido", confirma Mateus Batista.

Um elétrico vazio

No xadrez de lojas da íngreme rua que desagua em São Bento, a montra da Casantonio ainda deixa a luz entrar. É assim loja sim, loja não. "Fecharam algumas lojas com algum peso, mas, pelo que sei, trata-se de cadeias de lojas que fizeram uma reestruturação por sítios estratégicos", analisa Helena Rebelo. A comerciante, de 49 anos, assegura que, se tivesse de pagar a funcionários, também não teria aberto as portas.

"O Porto já esteve completamente abandonado, assustador. Agora tem mais gente mas está triste. Dá-me tristeza, fico triste, porque geralmente as pessoas queixam-se de um Porto cheio de turistas, mas o turismo deu muita vida à cidade." Um Portugal excluído dos corredores aéreos vive um impacto "brutal". Na Casantonio, a descida nas vendas atingiu os 90%. "O ano começou muito bem e tínhamos perspetivas de que seria um grande ano... Estávamos à espera de alguma recuperação em julho e não se tem verificado. Tem sido muito abaixo das expectativas, embora as expectativas não fossem muito altas."

A empresária confessa que "é muito difícil sobreviver assim", porque "as rendas um dia terão de ser pagas, por muita boa vontade que haja, e as rendas no Porto são pesadas". Mesmo em lay-off, a trabalhar com horários reduzidos, as dificuldades aumentam de dia para dia. "Eu e a minha sócia nunca recorremos à banca, nunca precisámos. Hoje vemo-nos obrigadas a fazer isso. Estamos a tentar sobreviver. Quero continuar aqui, enquanto conseguir."

A Casantonio, apetrechada com lembranças da cidade, destinadas sobretudo ao olho do turista, ainda tem as andorinhas na porta, os quadros e a marroquinaria utilitária e de souvenir. 'Very typical', poderia dizer-se.

"Sinto que olham para a montra e não entram. Como é que as pessoas têm receio se as lojas estão vazias? Como é que as pessoas têm receio de vir aqui e não têm receio de ir à Zara, por exemplo?" Santa Catarina já é um atropelo de gente, mas a 31 de janeiro é uma espera. Numa sexta-feira à tarde, a rua "tinha sempre pessoas a passar, a subir e a descer, entre Santa Catarina e a ribeira", recorda.

A conversa sobre os dias "angustiantes e de incerteza" ocupa a loja inteira, mas algo detém o olhar e a atenção de Helena Rebelo. "Olhe o elétrico. Já vi elétricos vazios a passar. Os elétricos estavam sempre cheios. Como é possível um elétrico vazio?"

O Porto não falhou a vida, como diria um livro. A vida é que agora é esta, e por tempo indeterminado. Jean-Paul Sartre escreveria sobre um tempo de "Náusea", por não ter vivido um como este: "Vejo o futuro. Está ali, pousado na rua, um nadinha mais pálido do que o presente. Que necessidade tem de se realizar?" Toda, a necessidade é o que mais abunda.

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