Guatemala
Viagens

Percorrer o mundo em tempo de Covid. "É uma fase complicada mas única e histórica"

João Amorim ficou infetado com Covid-19 em Portugal. O pormenor seria irrelevante, não fosse a profissão do são-joanense de 29 anos. Há 11 anos, quando terminou o ensino secundário, João Amorim candidatou-se a Bioquímica e entrou na universidade, sem certezas quanto à sua vocação. Terminado o curso com sucesso, começou a trabalhar, mas "não estava feliz". O impulso inexplicável dizia-lhe que fosse viajar, e a Gap Year Portugal abriu-lhe as portas à primeira grande viagem: pela América Latina. "Em todos os países onde estávamos era verão, andávamos a seguir o sol", lembra o autor da página followthesuntravel. As respostas não chegaram com a perseguição ao corpo celeste, mas a estrela jorrou luz sobre todas as perguntas. A viagem tinha de ser feita como Saramago escrevera: "ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava". Hoje João Amorim viaja profissionalmente, é líder de viagens na Landescape, e mal pára em casa. Gosta de ter "coisas para contar" das rotas sempre recomeçadas, com novos caminhos traçados e inaugurais passos dados, admite. E as memórias do tempo da pandemia também são histórias dessa "vida a ser vivida", assegura o viajante.

"Quando se começou a falar mais sobre isto, eu estava na Arábia Saudita, no ano passado, em fevereiro." Arábia Saudita tinha surgido como uma ideia "muito espontânea", depois de, em janeiro, o GPS assinalar a Guatemala, durante a última rota enquanto líder de viagens, ainda num mundo pré-pandemia. A Arábia Saudita tinha aberto as fronteiras ao turismo há pouco tempo, e a vontade de a percorrer, à boleia, era irresistível. "Estivemos lá um mês. É um país grande, mas deu para andar por muitos lugares. É um país complexo, complicado e muito diferente daquilo a que estamos habituados, com muitas regras estranhas, mas com muito para dar." É por isso que, da rota de abundantes surpresas e de preconceitos despovoados pelo país asiático, nascerá um documentário. As máscaras no rosto serão imagem frequente: "Muita gente já usava, não sei se por causa da Covid, mas nunca foi algo que nos preocupou."

António Pedro Moreira, 37 anos, estava no Dubai quando as primeiras notícias da pandemia começaram a despontar. Depois foi diretamente para o Egito, a 17 de janeiro de 2020, e para a Arábia Saudita, onde esteve um mês, a partir de 1 de fevereiro. Seguiu-se a Alemanha, - "em março, quando tínhamos 200 casos em Portugal" -, mas, em dois dias, muito tinha mudado. "Lembro-me de sair à noite e de ver a polícia a passar e a fechar os bares todos. Fui-me apercebendo da gravidade da situação, até tive de voltar para casa, com medo de que não tivesse voo." Casa, em Vale de Cambra, foi pousio por pouco tempo. Na verdade, António Pedro Moreira - o "Pedro on the road" - esperava que "lá para outubro" fosse possível voltar a "viajar, perder países".

"Para mim, na altura, meio ano era muito tempo, mal sabia eu..." Também líder de viagens, António Pedro Moreira teve de cancelar um percurso para a Argélia, em outubro, e receia futuros cancelamentos, por possíveis receios dos participantes. Entre fevereiro e março, os olhos do viajante de Vale de Cambra e também psicólogo de formação prenderam-se no verde do país cuja capital é paisagem natural: Praia. "De cidades como Mindelo, cuja atração principal é a vida cultural, vim conhecendo só metade. Não havia música ao vivo, não havia noitadas."

Sentia-se "muito feliz" numa noite, numa cratera de um vulcão, na Ilha do Fogo, a ouvir Lana del Rey, com um céu negro repleto de estrelas. Essa plenitude da viagem, afiança, não se alterou com a pandemia. O que se modificou foi o planeamento, o momento em que ela começa.

Regressou de Cabo Verde - onde os "casos estão bastante controlados, mas era preciso fazer testes para viajar entre ilhas e usava-se geralmente máscara na rua"- há um mês e não sabe qual será a próxima viagem. Não é tanto a pandemia que o trava mas a vontade de ser pai. "O que vai mudar com a pandemia é as pessoas já não darem dois beijinhos em contexto de trabalho. Como viajante não estou muito preocupado. A Humanidade é muito plástica, mas é plástica ao longo de gerações, décadas e séculos."

Para João Amorim, a Covid-19 foi um exercício de recalendarização. O Irão estava nos seus planos, para abril, mas o futuro do verbo tinha conjugação incerta. Também já não foi ao Paquistão, em maio. "Isto começou na China, mas depois passou para o Irão. Eu comecei a perceber que, se calhar, já não dava para ir lá."

"Isto foi tão gradual, não foi algo que simplesmente explodiu... Se, no ano passado, me tivessem dito 'João, tu vais estar um ano e meio sem poder viajar, sem poder fazer viagens como líder de viagens', tinha ficado um bocado preocupado." Dali a um mês, seria sempre melhor, pensava o viajante. Habituado a não fazer planos a longo prazo, com uma janela de três meses a ser um horizonte demasiado longínquo, João Amorim foi também deixando sempre o medo para depois, e acabou mesmo por não chegar. "Uma das coisas que viajar nos ensina é a adaptarmo-nos à viagem em si, àquilo que viajar e os países nos trazem, às coisas boas e às coisas más", acaba por explicar.

Acalmar o ímpeto viajante era preciso, conta João Amorim, sobretudo depois de todas as viagens de trabalho terem sido canceladas. No verão de 2020, percorreu a Serra da Freita, com um grupo, quando ainda se podiam reunir dez pessoas. Quando o desconfinamento começou, foi tempo de "explorar Portugal", com roadtrips pelo Norte, mas também com um percurso a pé pela Costa Vicentina, "quase sem turismo", duas semanas na Madeira e um mês passado nos Açores. "Notava-se uma diferença muito grande entre o Norte e o Sul. Quanto mais para Sul ia, menos pessoas via e mais se queixavam da falta de turistas. Mas muitos portugueses dedicaram-se a conhecer Portugal. A ilha das Flores recebeu centenas e centenas de açorianos que nunca tinham andado a viajar pelas ilhas."

Quase um ano depois desde a última viagem internacional, João Amorim rumou, há dois meses, para Guatemala e para o México. "Eu tinha a ideia de que queria ir, durante a pandemia, a um país que já conhecesse, para ver se as coisas tinham mudado. Apanhei o meu voo para a Guatemala um dia antes do novo confinamento mais severo aqui em Portugal", pormenoriza. Com as pessoas fechadas em casa, o mundo do são-joanense era convertido e ampliado numa floresta tropical de história ancestral, em natureza e cultura que brotam na mesma proporção e em simbiótica conjunção. A realidade pandémica nos dois países americanos era muito distinta da vivida em Portugal - que era "o pior país do mundo" -, e, na Guatemala, a vida não tinha mudado radicalmente, com perto de 70 novos casos por dia. As máscaras cobriam os rostos dos que se emparedavam em locais públicos, muitos restaurantes e estabelecimentos fecharam. A economia da Guatemala tinha estado encerrada durante quase seis meses depois de março de 2020, e era esse o medo - "o medo de morrer à fome" - que mais subsistia. João Amorim nota mesmo que "as pessoas estavam muito recetivas e igualmente felizes por ver os poucos turistas que por lá andavam".

Para quem vive sempre de pés e cabeça inquietos, a Covid-19 não comprometeu nem a paixão nem a experiência da viagem. "Qualquer viagem que eu faça a um país e que outra pessoa faça uma semana depois, um dia depois ou uma hora depois, é diferente, porque nos encontramos com pessoas diferentes e estamos sujeitos a estímulos diferentes", reflete. "É sempre tudo diferente. É certamente diferente viajar agora do que seria viajar há um ano, mas é sempre diferente."

João Amorim garante que este momento trouxe uma oportunidade "espetacular" para atravessar fronteiras: "Embora o mundo esteja a passar por uma fase complicada, isto é único e vai fazer parte da História. Para nós, viajantes curiosos, conscientes também, com cuidado, é uma época espetacular para o fazer, e a verdade é que muitos destes países da América e da Ásia necessitam do turismo." Foi isso que o líder de viagens pôde comprovar, ao conversar com os amigos que criou em várias partes do mundo.

"A lição que a pandemia me trouxe eu já tinha aprendido. Em abril, eu enviei mensagem para um amigo meu, na Guatemala. Ele respondeu-me que estava numa situação de desespero para sustentar a família e já não tinha como fazer dinheiro para as despesas. Do outro lado do mundo há pessoas cujos problemas são muito maiores do que a Covid." Foi em Tikal, uma antiga cidade maia nas florestas tropicais da Guatemala, que os dois, guia e viajante, inauguraram a amizade. Numa casa "humilde", com água fria e "dezenas de pessoas a viver num espaço súper pequeno", havia também uma área vaga para o português pernoitar. O guatemalteco já o havia orientado anteriormente, e agora João Amorim queria ajudar: "Juntámos muito dinheiro, enviámos e pedimos-lhe que se ajudasse a ele próprio e à comunidade, e, ao longo do ano, fui recebendo mensagens dele e fotografias com sacas de feijão, milho e açúcar para distribuir."

Ensinamentos, aprendizagens, mas também oportunidades para a partilha - uma das formas mais eficazes de regresso a casa. João Amorim não esconde que a viagem à Guatemala possibilitou, orgulhosamente, e sem vergonha no advérbio, a participação num dos diretos no Instagram de Bruno Nogueira.

Preparado para imprevistos, que acontecem todos os dias em cada percurso, Colômbia e Islândia - das auroras boreais e das noites longas - estão nos planos para 2021 do líder de viagens. "Isso obriga-me a ter viagens marcadas com antecedência, mas é algo de que não gosto muito", admite. "Queria ir para a Islândia para a semana, nas não devo conseguir. Devo fazer outra coisa qualquer. Também devo ir às Ilhas Faroé."

A ânsia de viajar é comum aos dois amigos. Depois de já ter conhecido 93 países, António Pedro Moreira diz que se atira para a viagem para esquecer o medo de morrer, ou talvez para que o mundo o engula. "É um medo egocêntrico. Há pessoas a morrer todos os dias e não é assim tão importante. Em viagem, não penso muito nisso, estou simplesmente a existir e estou no seio de algo maior do que eu, que é a Humanidade. Sinto-me desapegado do meu próprio ego. Vou morrer um dia, mas assim sinto-me mais em paz com isso." A vastidão da espécie humana e a insignificância do eu fascinam-no.

João Amorim também se sente mais alheio à passagem do tempo quando está em movimento. "Quando fizer 30 anos, vou entrar em depressão. Não estou preparado para isso. Mesmo que não queiramos, somos sempre influenciados pela cultura em que vivemos, e, no país onde vivemos, 30 anos já é aquela idade de ter juízo e de ter filhos."

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