"Situação alarmante." Zero queixa-se a Bruxelas por "má gestão" de fundos e "violação da diretiva Aves"

A associação ambientalista vai apresentar uma queixa à Comissão Europeia contra o Estado Português. À TSF, Paulo Lucas diz que Portugal está a "caminhar a passos largos" para a extinção das aves estepárias e adianta que a aplicação do último plano de desenvolvimento rural "falhou redondamente".

A associação ambientalista Zero anunciou esta sexta-feira que apresentou uma queixa à Comissão Europeia contra Portugal por "violação da diretiva Aves", que visa proteger as aves selvagens no espaço comunitário, e por "má gestão dos fundos europeus destinados à agricultura".

Em comunicado, a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável justifica a ação com o "decréscimo alarmante" de espécies de aves estepárias (predominantes em estepes) "que estão protegidas por lei", estimando que as populações da águia-caçadeira, do sisão e da abetarda caíram entre 49% e 85% nos últimos 10 anos.

A associação salienta que estas espécies, que têm "a maior parte da sua população" no Alentejo, "estão muito dependentes" da rotação entre culturas de cereais de sequeiro e o pousio, "tendo sido designadas 13 Zonas de Proteção Especial (ZPE) com vista à sua conservação".

O dirigente da Zero, Paulo Lucas, fala de uma situação alarmante. "Estamos a falar de um decréscimo para metade no caso do sisão e da abetarda. No caso da águia-caçadeira, o decréscimo no Alentejo é de 85%. Nós estamos a caminhar a passos largos para a extinção destas aves em Portugal. É uma situação alarmante, temos que cuidar da situação sob pena de assistirmos ao desaparecimento destas aves no Alentejo e a um não cumprimento dos objetivos de um Estado que é preservar a biodiversidade que tem", alerta, em declarações à TSF.

Paulo Lucas explica que estas aves estão muito dependentes das culturas de cereais. Como os fundos europeus são poucos, os agricultores apostam noutras produções.

"É a própria alocação dos fundos e a distribuição dos fundos que não estão a beneficiar os agricultores, ou seja, não são suficientemente atrativos. A maior parte das zonas de proteção especial não tem quaisquer contratualizações com os agricultores no sentido de proteger estas aves. Pode dizer-se que a aplicação do último plano de desenvolvimento rural para Portugal nesta matéria falhou redondamente. Temos que inverter esta situação e tem que haver uma articulação entre o Ministério da agricultura e do Ambiente que efetivamente funcione", afirma.

Para a Zero, várias razões explicam o "decréscimo brutal" das espécies de aves estepárias, como os "fracos apoios", por hectare, aos agricultores para a sua conservação, que "parecem não compensar os custos adicionais e de oportunidade face, por exemplo, a outras atividades mais competitivas e mais subsidiadas, como a produção de gado bovino ou a agricultura de regadio, e também não compensam as perdas de rendimento incorridas que derivam de menores produtividades".

"O reduzido valor dos apoios em causa não tem, pois, impedido que os agricultores prefiram a criação de bovinos ou outras espécies pecuárias", refere o comunicado, assinalando que as pastagens e as culturas forrageiras, ligadas à produção de gado, ocupam a maior parte das áreas declaradas em oito das 13 ZPE.

Segundo a Zero, em "quase todas" estas ZPE "proliferam situações de intensificação agrícola de génese ilegal associadas ao regadio que alteraram o uso do solo" sem que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) "tenha efetuado qualquer diligência no sentido de garantir a reposição da situação anterior".

Acresce, de acordo com a associação ambientalista, que "as datas de cortes de cereais e de culturas forrageiras são autorizadas sem que se tenha em conta o ciclo de reprodução das espécies" das aves protegidas.

"O que favorece o rendimento dos agricultores, mas cria uma perversão total, já que, na prática, a subsidiação pública acaba a promover a mortalidade nas espécies que a legislação comunitária protege", sustenta a Zero, apontando a falta de planos de gestão para cada uma das ZPE e de um plano de ação para a conservação das aves estepárias, o qual, diz, "há muito se encontra elaborado" pelo ICNF, mas "nunca foi aprovado pela tutela".

Para a associação, só a alteração do Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC) 2023-2027, do qual Portugal "aguarda por uma decisão" de Bruxelas, "pode salvar da extinção" as aves estepárias, em particular a águia-caçadeira, o sisão e a abetarda.

"Há que repensar os montantes dos apoios aos agricultores com atividade agrícola situada nas ZPE Estepárias, para que os mesmos sejam adequada e justamente compensados por custos adicionais, custos de oportunidade e por perdas de rendimento pela adesão aos apoios zonais destinados à manutenção da rotação de sequeiro cereal-pousio", defende.

De acordo com a Zero, a concessão de subsídios mais ajustados aos agricultores das ZPE permitiria que a produção de cereais praganosos (trigo, centeio, cevada, aveia) e leguminosas (feijão, grão, favas, lentilhas, ervilhas) se tornasse numa "atividade competitiva face à produção de gado" e "inibidora de pressões no sentido da intensificação agrícola".

Numa reação ao comunicado, o Ministério da Agricultura alegou à Lusa desconhecimento da queixa da Zero e que o PEPAC "respeita os regulamentos europeus e está em linha com a proposta do quadro da ação prioritária para a biodiversidade".

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