Reportagem TSF. Solidão forçada
Reportagem TSF

Reportagem TSF. Solidão forçada

Centros de dia sem saberem quando abrem com idosos a regressarem mais fragilizados.

Desde 15 de agosto que é possível reabrir os centros de dia, que dão apoio sobretudo aos idosos, mas dois meses depois desta possibilidade concedida pelo Ministério do Trabalho e da Segurança Social, muitas instituições mantêm-se de portas fechadas e a acompanhar os idosos em apoio domiciliário. Contactada pela TSF, a Segurança Social afirma que dos 2.076 Centros de Dia existentes no país, 562 procederam à reabertura desta resposta. Representam cerca de um quarto da totalidade.

Na maioria, estas valências são IPSS - Instituições Particulares de Solidariedade Social - pequenas para quem a reabertura representa, além do perigo do coronavírus, um acréscimo de despesas e um investimento adicional em recursos humanos e financeiros.

Na Reportagem TSF - "Quero voltar" - contam-se histórias na primeira pessoa daqueles a quem esta decisão de os manter afastados dos centros de dia, os coloca numa solidão forçada, havendo mesmo quem, desde março, apenas tenha contacto com as funcionárias do apoio domiciliário.

Já os centros de dia desdobram-se. Colocaram os idosos que tinham nesta valência nas rotas do apoio domiciliário, os funcionários a visitá-los várias vezes ao dia, para entregar a alimentação ou fazer a higienização, mas o tempo para falar e fazer companhia é pouco. Esta transformação acarreta mais despesas para as pequenas IPSS, que tiveram de investir em material de proteção individual, em mais gasóleo e em mais recursos humanos.

Alzira Simões, de 91 anos, diz-nos que tem chorado muita lágrima. "Antes de ontem até gritei, ó Deus, deixa-me estar mais uns dias", conta acrescentando que tem passado os dias "muito mal", pois só recebe as visitas da família ao final do dia. Quando estava no centro de dia Melo Pimenta, em Luso, "era uma beleza, porque sempre falávamos".

A história desta idosa de 91 anos, que estava no Centro de Dia Melo Pimenta, em Luso, repete-se: Rosa Maria, Norberto, Carmina, Laura, Dorinda, Aurora ou António... mudam apenas os nomes.

No centro de dia conviviam, conversavam e partilhavam experiências.

Catarina Neves, a diretora técnica, lamenta, mas não sabe quando estão reunidas as condições para voltar a acolher estes 20 idosos de centro de dia. "Não conseguimos prever, até porque os casos estão a aumentar e eles são considerados um grupo de risco. É lógico que gostava de os ver aqui, mas gostava que viessem com a máxima segurança e isso ninguém pode garantir", diz.

Além de serem um grupo de risco, a pandemia trouxe custos acrescidos às IPSS mais pequenas, "em combustível aumentou consideravelmente, em equipamentos de proteção individual igual, porque em cada casa usam um EPI diferente, tem de ser descartado, e tivemos de recorrer à contratação de mais trabalhadores".

O trabalho e as despesas aumentaram também na cozinha da instituição. "Tivemos de nos ajustar, mas na altura foi um bocado complicado. Tivemos de fazer mais comida. Em termos de logística foi complicado porque as instalações são pequenas, precisamos agora de mais material", explica Anabela Midões, cozinheira chefe do Centro Melo Pimenta.

Além de um esforço físico maior, a nova realidade exige mais concentração das cozinheiras, pois têm de ter "a capacidade de saber que há utentes que comem sopa passada, os que comem enriquecida, os que comem pastosa, os que não podem comer carne de porco, os que não podem comer vaca, ou aqueles que comem dieta".

Outra das preocupações prende-se com a quantidade de comida que é preciso enviar para casa. "Aqui, a comida era servida à travessa pelas funcionárias. Se eles quisessem mais podiam sempre repetir, agora é diferente. Não podemos estar a mandar a mesma quantidade que comeriam aqui porque se quiserem repetir não podem, então há a preocupação de mandar sempre um bocadinho mais de sopa e de segundo prato", conta a chefe de cozinha.

O Centro de Dia Melo Pimenta tinha 20 utentes em apoio domiciliário, agora saem 40 cestos alimentares diários, é o dobro.

O contacto com os idosos mantém-se há sete meses em apoio domiciliário, mas também por telefone com a animadora sociocultural e a psicóloga. Já o professor de reabilitação física visita os que mais precisam com regularidade.

Quando voltarem ao centro de dia vão estar ainda mais fragilizados, não tem dúvidas a psicóloga Susana Silva. "Tenho acompanhado todos eles e nota-se que estão mais fragilizados e ansiosos por regressarem, porque sentem-se aqui acolhidos e acompanhados", avança.

Sentem-se sozinhos, reconhecem que são um grupo de risco, mas querem voltar, como conta Carmina, de 91 anos. "A gente lá está muito bem, estamos lá muito bem. [Tem saudades?] Sim, sim, da convivência, assim aqui estou muito sozinha", conta a idosa com um sorriso, que subiu um patamar a muito custo só para nos receber e falar connosco na sala de estar de sua casa.

Perante esta realidade da pouco significativa reabertura dos centros de dia no país, a TSF contactou a Segurança Social que afirma que "o funcionamento desta resposta social tem de garantir o cumprimento integral das medidas de prevenção e controlo preconizadas pela Direção-Geral da Saúde para a COVID-19, quer para os que funcionam de modo isolado, quer para os que fazem parte de outras respostas sociais".

A verificação das condições da reabertura deve ser avaliada pela instituição, em articulação com a autoridade local de saúde e o Instituto de Segurança Social.

Em resposta à TSF, a Segurança Social dava conta que dos 2.076 Centros de Dia existentes no país, apenas 562 procederam à reabertura desta resposta.

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