Vidro na Marinha Grande, uma tradição inquebrável?

Na abertura do Ano Internacional do Vidro, declarado pelas Nações Unidas, um mestre vidreiro e dois gerentes de uma fábrica na Marinha Grande olham para o futuro da arte histórica, na capital portuguesa do vidro.

Alfredo Poeiras tinha 10 anos quando começou a trabalhar o vidro, na Marinha Grande. Hoje, com 67, orgulha-se de ser um dos últimos mestres vidreiros do país. Em 2010, abriu o Poeiras Glass - Estúdio do Vidro, no Edifício da Resinagem, no coração da praça que tem o nome do "pai" da Marinha Grande, Guilherme Stephens. Foi este inglês que fez nascer a indústria do vidro na cidade, na segunda metade do século XVIII.

A Marinha Grande tornou-se a capital portuguesa do vidro, mas a arte está a desaparecer, dando lugar a uma indústria feita de "robots".

Do colégio de mestres vidreiros, fundado em 2011, apenas dois estão a trabalhar, lamenta Alfredo Poeiras, que recorda como "a freguesia da Marinha Grande chegou a empregar 4 mil pessoas. Agora, são seis".

No Estúdio do Vidro, Alfredo Poeiras produz peças manualmente, organiza formações e recebe turistas.

Das peças em exposição, o mestre vidreiro destaca as garrafas com compartimentos individuais de quatro ou seis vinhos, "um ex-libris" da Marinha Grande, e as garrafas e jarros feitos com a técnica doublé. "Se não fosse este estúdio, a técnica doublé estaria como os dinossauros, quase em extinção", refere Alfredo Poeiras.

No espaço Poeiras Glass, existem vários fornos para fundir o vidro, que é composto por três materiais: sílica (ou areia), soda e calcário. A temperatura técnica de fusão é de 1415 graus, explica Alfredo Poeiras, e alguns fornos levam oito dias a aquecer. Por isso, só se ligam quando existe um volume de encomendas que o justifique.

Na bancada de trabalho, o mestre tem a cana do vidreiro, por onde sopra, para dar forma à peça, como um "balão de borracha"; moldes e um conjunto de ferramentas para trabalhar manualmente o vidro. "O primeiro contacto que tenho com o vidro é a 1200 graus", descreve Alfredo Poeiras. Daí que o mestre vidreiro utilize papel húmido para não queimar os dedos. A ferida que tem no polegar direito, garante, foi provocada não por uma queimadura, mas por vidro frio. "É uma lâmina", adverte.

Na Vidrexport, um pequeno grupo de trabalhadores garante a produção artesanal de peças de vidro.

É a única fábrica na Marinha Grande que mantém a produção manual, embora as grandes encomendas sejam todas de garrafas. Os sócios gerentes Hermenegildo Santos e Paulo Simão perceberam, em 2006, que a produção manual não tinha futuro. Compraram máquinas para apostar no fabrico de garrafas e actualmente, produzem cerca de 20 toneladas de garrafas por dia, um milhão por ano. Os dois sócios asseguram que têm lucros. O negócio, que começou com seis pessoas, tem hoje 50 trabalhadores. Paulo Simão salienta que existem menos fábricas, com menos diversidade de produtos, mas hoje, produz-se muito mais. O negócio movimenta toneladas de vidro, que representam muitos milhões de euros. 99% da produção destina-se ao mercado espanhol.

70% das garrafas produzidas em Portugal saem da Marinha Grande, garante o presidente da Câmara, Aurélio Ferreira.

A autarquia programou várias iniciativas para celebrar o Ano Internacional do Vidro. Nas escolas, haverá "Gentes e lugares", para levar a tradição da indústria vidreira aos mais novos; um concurso "Eu reciclo mais do que tu" e será ainda editado um livro com a história do vidro.

Aurélio Ferreira admite que "só há mestres vidreiros antigos", mas a Marinha Grande tem três garrafeiras, com um "processo altamente tecnológico e inovador. A tradição nunca irá desaparecer", garante o autarca.

Mais céptico, o mestre vidreiro Alfredo Poeiras antevê que não haverá futuro para a produção artesanal. "Um jovem de 41 anos vai ser o último mestre vidreiro na Marinha Grande." De resto, são empresas com "vidro de robots. Vai terminar na sequência dos tempos modernos", lamenta.

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