A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Invisibilidade do jornalismo, um novo tipo de medo, meias solas e outros cabedais

O edifício histórico que, desde 1925, acolheu a sede do jornal Chicago Tribune foi vendido recentemente e está a ser transformado, de modo a acolher mais de centena e meia de apartamentos de luxo. A Torre do Chicago Tribune é um edifício de estilo neogótico cuja fachada ostenta pedaços de dezenas de monumentos históricos em várias partes do mundo, do Parténon à catedral de Notre-Dame. A redacção do jornal foi, entretanto, transferida para andares alugados noutro edifício do centro da cidade.

Esta parece ser uma nova tendência. Também o Boston Herald passou recentemente por um processo semelhante, devido a alegada necessidade de contenção de custos. Rita Figueiras, professora de Ciências da Comunicação e Ciência Política da Universidade Católica de Lisboa, comentadora residente do magazine "A Espantosa Realidade das Coisas", considera que estamos perante uma forma simbólica de afirmação de uma certa "invisibilidade" do próprio jornalismo.

Este é o tema inicial do magazine dos domingos, editado por Fernando Alves. "Estar no centro", sublinha Rita Figueiras, "é uma forma de dar visibilidade, de afirmar as sedes dos jornais junto de outros edifícios do poder, ainda que como símbolo de contra-poder nas sociedades democráticas. Estes edifícios majestáticos demonstravam, também, a vitalidade de uma indústria de respeitabilidade, com relevância e com estatuto social. Indo para edifícios com uma maior indiferenciação social, afirma-se o jornalismo como outra profissão qualquer. Ele perde, desse modo, também, a sua relevância simbólica na sociedade".

Rita Figueiras aborda ainda a crescente precarização no sector, a partir de uma notícia da ProPublica segundo a qual os jornalistas "estão a ser deixados para trás, face ao declínio do sector. Muitos são obrigados a passar à condição de free-lancers ou a escolher outras carreiras. Alguns deixarão os media para sempre". A notícia da ProPublica citava um alerta recente de Margaret Sullivan, especialista em media do Washington Post, de que "o jornalismo está a perder uma geração de talentos diversos".

A professora da Católica comenta ainda a previsão mais optimista da fundação norte-americana Knight Foundation de que "2020 poderá ser o ano em que cinco gerações de jornalistas (dos tradicionalistas aos baby boomers bem como às gerações X, Y e Z) voltarão a aprender umas com as outras". Tal poderia ser o prenúncio de uma nova cultura no jornalismo, com a qual os meios de comunicação fomentariam "o conhecimento intergeracional".

Já uma parte considerável da intervenção do sociólogo Paulo Pedroso, professor do ISCTE e comentador residente do magazine dos domingos, é dedicada à análise dos pareceres da Comissão Nacional de Protecção de Dados divulgados recentemente pela TSF. Esses pareceres, vinculativos, chumbam propostas de videovigilância apresentadas pela PSP, as quais utilizariam sistemas munidos de inteligência artificial. Estes sistemas, que seriam aplicados em Leiria e em Portimão, poderiam procurar pessoas a partir de certas características físicas, como o sexo ou a cor da roupa.

"Quando entre a liberdade e a segurança, preferimos sacrificar a primeira à segunda", afirma Paulo Pedroso, "não merecemos uma nem outra". "Aquilo que está aqui em causa é o nosso medo colectivo, a nossa insegurança". "Há um dado que me perturba, nisto", prossegue o sociólogo: " Antigamente, quando nos queríamos sentir seguros, comprávamos fechaduras; e, a seguir, alarmes. Mas tratávamos de nos fechar em casa. Agora o que está em causa é o controle do cidadão no espaço público para a segurança de todos. Isto é um novo tipo de medo".

Passamos a estar fechados na rua? - pergunta o editor do magazine. "Sim. E isto é um novo tipo de medo. Nós tivemos já aqui uma conversa, a propósito das previsões de Harari para o futuro. Eu diria que este é um bom exemplo do tipo de discussões que vamos de ter no futuro".

Paulo Pedroso comenta ainda recentes declarações da Comissária Europeia para a Coesão e Reformas, no final de um encontro de trabalho com o ministro português do Planeamento. Elisa Ferreira sublinhou que "é preciso dar uma maior visibilidade ao que se faz com o dinheiro dos fundos europeus". Ainda que a Comissária Europeia tenha usado a expressão "visibilidade" e não a expressão "transparência, é lícito imaginar situações de aplicação duvidosa desses fundos?

Paulo Pedroso não creia que haja "novidade" nestas declarações. "A União Europeia sempre achou que os cidadãos europeus têm uma visão distorcida da presença da União nas suas vidas. A UE é vista como sendo distante quando ajuda, em particular, os países da coesão; os projectos europeus são muito associados a fraudes, a escândalos, a manipulações, a usos menos próprios quando apoiam obras estruturantes e ajudam os países a melhorar. É claro que a UE tem regras de visibilidade. Se olharmos à nossa volta, aqui em Portugal, encontramos placas anunciando co-financiamentos da UE, mas elas desaparecem na poluição visual da publicidade. Creio que o que a Comissária quis fazer aqui foi, pura e simplesmente, deixar uma mensagem básica de que os cidadãos têm de conhecer melhor a União. Mas coloca-me uma questão que ela não colocou e que é muito importante, a questão da transparência. Visibilidade e transparência não são sinónimos e a UE também tem feito muitos esforços na área da transparência. Eu diria que os financiamentos da UE são mais transparentes do que os financiamentos nacionais. Mas o grande drama é que a UE tem, de facto, poucos recursos. A mim preocupa-me menos se os cidadãos europeus têm consciência de quanto a UE está presente nos seus países do que saber se a UE vai ter, na próxima década, os recursos necessários para continuar a apoiar as áreas mais desfavorecidas da sociedade. Paulo Pedroso dá vários exemplos que confirmam a importância da ajuda europeia a Portugal e anota algumas das razões que explicam o facto de ainda não termos encontrado o nosso caminho para o regresso ao crescimento. Continuamos entretanto a precisar deste apoios de modo a prosseguir o desenvolvimento. Caso contrário, "continuarmos a caminhar para a cauda da Europa".

Temos, pois, muitas meias solas para gastar, no caminho. Assim haja, entretanto, outros cabedais. Onde bater? À porta de Bruxelas? Ou ali àquela porta de um prédio antigo do Porto, ao lado da igreja de São José das Taipas, entre o Centro Português de Fotografia e a Cooperativa Árvore, a dois passos da casa onde nasceu Almeida Garrett, na rua dr Barbosa de Castro? Algo chamou a atenção da repórter Teresa Dias Mendes, mesmo se ela já não vislumbrou o antigo letreiro "Solas e Cabedais", durante anos exibido na frontaria do estabelecimento de José Nogueira. A conversa convocou uma antiga canção de Sérgio Godinho, a Cantiga do Camolas. "Vou andando e as minhas botas /que se gastem, que se amolem".

Assim palmilhamos os dias que nos revelam a espantosa realidade das coisas.

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