Acontece no Brasil

Todas as quintas-feiras, o correspondente da TSF em São Paulo, João Almeida Moreira, assina a crónica Acontece no Brasil – um país onde a realidade e o insólito andam muitas vezes de mãos dadas.

Criminoso confessa crime e depois confessa que não o cometeu

Caseiro quis gabar-se perante os patrões ao afirmar ter morto dois assaltantes que nunca existiram com uma arma que jamais teve. Resultado: foi preso

Sem saber sequer da existência de um crime, a patrulha rural da polícia de Goiás teve a sorte de receber uma confissão na manhã do último sábado.

O caseiro de uma fazenda de Rio Verde contou aos agentes que havia morto dois assaltantes numa troca de tiros. E que, na sequência, havia atirado os corpos e a arma do crime para o fundo do Rio Verdão, que banha Rio Verde.

O criminoso confesso, de 36 anos, deu detalhes: uma camioneta com três homens estacionou à frente da fazenda que ele cuida, com a intenção de a assaltar. Sem hesitar, o caseiro, munido de uma espingarda calibre 32, matou um com um tiro no pescoço, e outro com um tiro na cabeça. O terceiro conseguiu escapar.

A custo, colocou os mortos e a arma no jipe da fazenda e despejou-os no Verdão.

Mais de 20 homens, somando polícias, bombeiros e peritos, juntaram-se na operação de resgate dos corpos. O autor dos disparos também ajudou nas buscas que demoraram quatro dias mas se revelaram infrutíferas.

Interrogados, os vizinhos da fazenda disseram não ter ouvido nada de anormal na noite do crime relatado pelo autor - o que não batia com a sua versão de ter havido troca de tiros.

Como também não encontrou vestígios de sangue nem nas roupas do caseiro, nem no jipe usado para transporte dos corpos, a polícia começou a desconfiar da confissão do crime.

Começou a desconfiar da existência do crime.

E o autor confesso dos disparos confessou novamente: não disparou, não houve assalto, quis apenas passar-se por herói perante os donos da fazenda.

Por esta altura, ele já havia pago cerca de 500 euros pela posse ilegal de uma arma que não tem; e agora, além de ter de arcar com o prejuízo causado pelas buscas, ainda corre risco de passar três anos de prisão por confissão falsa.

A estupidez e o devaneio bélico, que resumem o Brasil pós-2018, numa só história.

O correspondente da TSF no Brasil, João Almeida Moreira, assina todas as quintas-feiras a crónica Acontece no Brasil.

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