Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
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A arte da guerra e a chuva molha-tolos

Luiz Eduardo Ramos, um dos quatro ministros generais com gabinete no palácio do Planalto, apregoou ontem numa rede social o mais recente milagre de Bolsonaro: o presidente levou a chuva a Mato Grosso.

O prodígio foi descrito pelo general e ministro da Secretaria de Governo com estas húmidas palavras: "Após a visita do nosso Presidente Bolsonaro a Mato Grosso no dia 18 de Setembro, no dia seguinte começa a chover. Deus está com o nosso presidente e continuará a abençoar o Brasil, em que pese todas as campanhas contra esse governo." O "em que" encalhou na frase pelo punho do general de quem Bolsonaro não espera, jamais esperou, o fino pensamento de um Sun Tzu.

Bolsonaro também tuitou: "Sexta-feira estive em Sinop e Sorriso. Por ocasião do pouso nosso avião arremeteu por falta de visibilidade. Por coincidência as chuvas chegaram no sábado. Bom dia a todos." Lá no coração do agro-negócio, na dobra de uma Amazónia que ardeu até o fumo tapar o céu de S. Paulo, o boletim meteorológico não logrou consenso. Um deputado do PSB foi ao pantanal electrónico desmentir a chuva e descompor o, assim designado, "governo fake".

Sun Tzu, o general que escreveu "A arte da guerra", deixou ensinamentos preciosos para os generais futuros, ministros ou não. Entre esses ensinamentos está o que sublinha a correlação dos elementos, a chuva, o sol, o frio, o calor, com os restantes factores decisivos para uma estratégia vitoriosa. Ele coloca o clima no mesmo patamar da doutrina.

Bolsonaro aprenderia mais com Sun Tzu (por exemplo, sobre o modo como um exército confuso pode levar o adversário à vitória) do que cedendo à adulação dos seus generais ministros. O problema é que também ele está farto de meter água com a chuva. Há poucos meses, quando anunciou que estava infectado pelo novo coronavírus , comparou a doença a uma chuva. "É uma chuva", disse ele. "Vai atingir você." E, faz agora um ano, quando chamou "urubus" aos jornalistas que o interpelaram à porta do palácio, sugeriu à Globo que passasse a canção "Chuva de honestidade", de Flávio Fernando. Afinal, como se percebe pelo borda de água do general Ramos, " a chuva de honestidade" de que, no entender de Bolsonaro, o Nordeste precisava, é uma chuva de molha-tolos.

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