Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Aos pés de Monsanto

José tem mais cabaças presas na corda do que torreões teve o castelo de Monsanto quando Duarte d"Armas o desenhou e eram vários, entretanto desaparecidos. Faço humildosa vénia ao evocar o nome do grande ilustrador a quem D. Manuel I incumbiu do registo das fortificações fronteiriças. Sete meses levou o escudeiro do rei, montado em seu alazão, entre Caminha e Castro Marim. Pior sorte foi a do criado que o seguiu a pé. Até Castro Marim, não me queixarei, mesmo que os ossos se ressintam da empreitada.

José está sentado no murete junto ao grande largo em Relva, já na estrada que se enrosca no penhasco onde Gualdim Pais ergueu a fortaleza templária. Passam ciclistas em esforço e turistas pouco sensíveis ao trabalho que dá plantar as sementes junto a propícia árvore e esperar os frios que anunciam a colheita. Passam turistas e fotografam José sem pedir licença. Agora, com os telemóveis, guardam num ai a imagem das cabaças que ele não consegue vender e bem precisa. Tem a mulher num lar, isso lhe leva trezentos euros por mês, a pensão que resgatou de uma vida dobrado às terras pouco cresce dos duzentos. Não me espantaria se ele rematasse a conversa curta com um provérbio que talvez não se gaste por estas bandas: "Não sei que faça, se beba o vinho, se parta a cabaça".

São estas cabacinhas, penduradas no cordel, à beira da estrada que sobe a Monsanto, em duas partes desiguais, em forma de pera. José, que também vende limões, chocalha umas quantas, cheias de sementes. De outras aconselha que se usem para guardar água, como fazem ainda os pastores por esses campos.

E o senhor Barrocas, da barbearia móvel, quando virá? José explica que o barbeiro de Penamacor montará estendal, ali a dois passos, no largo, já desta quinta a oito. Mas isso já eu sabia, tinha lido os anúncios que o barbeiro ambulante colocara por estas esquinas, estava só a esticar conversa. Entretanto fazia-se tarde e subi ao "reino quase intocado das penedias", como Saramago lhe chamou. Tal como aconteceu ao viajante de há quarenta anos, também o repórter, quando aqui veio pela vez primeira, julgava, de pedras, ter visto tudo. Nem de cabaças, essa espécie de abóboras enxertadas de maracas, quanto mais de pedras que Gualdim Pais pisou com os seus "pés de ferro".

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