Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Aqui há gato

Ontem à tarde liguei a televisão num dos canais do noticiário animal repetitivo e ouvi António Costa, vestido de careto, desejando as melhoras a Zé Albino, o mediático gato de Rui Rio. A campanha tem tido o seu entrudo chocalheiro e esta festa dos rapazes cumpre, um pouco fora de prazo, o seu ciclo de 12 dias.

Costa estava preocupado com a depressão de Zé Albino e eu cuidei, até por ver na parede de Podence um graffiti representando Marcelo em pose vigilante, quase severa, que o gato mais famoso da campanha tivesse tido um súbito achaque. Seria este cuidado de Costa uma ponte com o PAN, uma atenção particular ao bem estar animal? Mas logo a ironia se instalou no rosto do improvisado careto. Costa vaticinava que, com a derrota de Rio no domingo o gato Albino vai sentir-se menos só. Rio respondeu com agilidade felina, garantindo que Costa devia seguir o exemplo do gato. "É que Zé Albino não perde uma oportunidade de estar calado", chocalhou Rio, noutro lugar da festa dos rapazes.

"Que fazes por aqui, ó gato? Que ambiguidade vens explorar?" - perguntaria, se cá andasse, um certo O'Neill. Eu mudei de canal e, não sei por que manigância nas teclas do comando, fui cair a meio da "Comédia de Deus", de João César Monteiro, no preciso momento em que dona Judite anuncia ao alucinado proprietário do Paraíso do Gelado que um tipo entroncado, vagamente francês, quer convidá-lo para uma caçada ao gato.

Algo em mim se eriçou inexplicavelmente e desliguei o electrodoméstico.

É que nenhum dos contendores parece ter recebido de um qualquer Deus, a "repentina unha" de que fala o O'Neill num certo poema.

Não reclamemos, de um ou de outro, que nos diga, como Cocteau, que "o gato é a alma visível da casa". Esperemos simplesmente que Zé Albino saia de cena e que, nos dias sobrantes de campanha, possamos perceber com nitidez qual dos candidatos a chefe deste gatil poderá gerir o Paraíso do Gelado.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de