Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Sinais

Notícias de Rostov

Notícias de Rostov

Jornais russos de ontem noticiaram a nova proibição aprovada por deputados locais na região de Rostov: o riso fica, doravante, vedado aos participantes em casamentos civis, durante a cerimónia. A notícia não estabelece graus de interdição, não revela se o sorriso, dos noivos ou das suas famílias, aquele sorriso "que vem do nada" de que falava a Lispector, cabe também na lista de proibições. Tomemos que a interdição se aplica apenas ao riso desatado, ao riso que se espalha numa sala como um hálito pesado. Já seria severidade bastante. Mas percebe-se, num quadro ditatorial: por alguma razão Mark Twain dizia que o riso era a arma mais eficaz ao serviço da espécie humana. Está, pois, proibido o riso durante os casamentos pelo registo civil, na região de Rostov. Mas o documento oficial agora aprovado permite, também as celebrações exuberantes durante a cerimónia, os acessórios volumosos (mochilas, por exemplo), o uso de telemóvel e de sapatos sujos.

Um parágrafo pouco iluminado

Um parágrafo pouco iluminado

No tecto de uma das salas dos seis andares da Villa de Aurora, em Roma, permanece o único mural conhecido de Caravaggio. O palácio vai hoje a leilão, por ordem judicial. O preço base de licitação da residência histórica da família Ludovisi é de 353 milhões de euros. Depois da morte do último proprietário, os herdeiros foram incapazes de manter este palácio onde nasceram dois papas. O governo italiano faz contas enquanto corre uma campanha para que o Estado não deixe escapar este tesouro que Bill Gates quis em tempos comprar.

Boost irreprimível

Boost irreprimível

Às quatro da manhã, tolhido pelo torpor do frio e sono sobrantes e pela iliteracia financeira, um tipo abre o mail desprevenido e pode sucumbir. Que diz a promessa electrónica de el dorados? "Comece a ganhar dinheiro imediatamente." Acontece que o pobre ciber-andarilho de plantão já não tem idade nem crença que o levem a não-lugares, não está para repetir hitlodeus, el dorados não o seduzem. Mas o ecrã esconde um invisível dedo que oferece raspadinhas para os olhos: "Clique aqui para ver a versão on line. Aproveite o início do ano e garanta já o seu pé de meia."

Jogo jogado e VAR

Jogo jogado e VAR

O debate de ontem foi esclarecedor, duro, civilizado. Nem Costa nem Rio pretenderam descobrir a pólvora, muito menos "o caminho marítimo para a Índia". Mostraram com maior clareza ao que vêm, que plano de jogo ensaiaram. Jogaram duro, marcaram em cima, mas não entraram às canelas nem queimaram tempo. Na verdade, dez dos setenta minutos de debate prometidos foram gastos pelos árbitros. Estes, embora não influenciando o resultado do jogo, quiseram de tal modo estar em cima dos lances que, por vezes, apitaram em demasia. Não foi isso que retirou interesse ao jogo, o tempo de jogo jogado foi táctica e estrategicamente rico, os espectadores não foram ludibriados. O pior foi a intervenção do VAR.

Omnibus

Omnibus

Uma criança nasceu ontem no ônibus da linha 867 de Campo Grande, na zona oeste do Rio. É a palavra ônibus que me prende, num primeiro momento. E logo ressoa uma velha canção da Legião Urbana, nos dias gloriosos de Renato Russo. A canção convoca "mendigos com os seus esparadrapos podres", matilhas de crianças sujas no meio da rua, outro modo de dizer presépio, entre tropa de choque e cartazes. Foi isso num tempo do qual se ausentaram verdade e mentira. O que soava, nesse presépio de favelas e "motocicletas querendo atenção às três da manhã", era música urbana. Nessa canção de 86 há um "ponto de ônibus". E alguém conta, alguém canta, que "uma criança nasceu".

Memória perecível

Memória perecível

A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto acaba de editar o 2º volume de "O Mundo Que Vivi", um belo livro que transcreve testemunhos registados durante várias sessões de uma conferência realizada há meia dúzia de anos. São, moderados por Francisco Duarte Mangas, Germano Silva e Manuela Espírito Santo, formidáveis histórias de vida contadas por César Príncipe, Fernanda Gomes e Júlio Gago. Vidas cheias que não ficaram fechadas sobre si mesmas, elas são valioso contributo para o enriquecimento da magnífica colecção Memória Perecível que a Associação tem vindo a editar.