Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Sinais

Pobre não poupa

Pobre não poupa

Entrevistado pelo jornal "Folha de São Paulo", o ministro brasileiro da Economia afiançou que "o pobre não poupa". A frase de Paulo Guedes, lida na fiada restante, parece, paradoxalmente parece, coisa de pobre. Afinal o ministro não poupou, ele também, nos considerandos: "Um menino, desde cedo, sabe que é um ser de responsabilidade quando tem de poupar", disse ele, abrindo uma nesga do mealheiro intelectual conquistado na escola de Chicago. "Os ricos capitalizam os seus recursos. Os pobres consomem tudo", proclamou, ainda, o homem que não esconde o fascínio pelas reformas económicas realizadas no Chile de Pinochet e pelo modelo chileno de capitalismo.

A bailarina negra

A bailarina negra

A história da bailarina negra Ingrid Silva vem contada em vários jornais brasileiros. Ingrid, hoje com 30 anos, nasceu nas favelas do Rio. Apoiada pelo projecto social Dançando para Não Dançar ela começou, desde menina, a desenhar no ar os movimentos daquela canção de Toquinho, "um, dois, três e quatro,/ dobro a perna e dou um salto./ Viro e me viro ao revés/ e se eu caio conto até dez". Hoje, ela triunfa no Teatro de Dança do Harlem, em Nova Iorque, e colabora com as Nações Unidas em campanhas pela promoção da igualdade de oportunidades na educação.

Viagem a um Reino Maravilhoso

Viagem a um Reino Maravilhoso

Novembro vai trazer-nos uma "Viagem a um Reino Maravilhoso", o novo disco dos portugueses Lavoisier. Tal como é explicado pelos autores, trata-se de um álbum conceptual feito para duas vozes, uma guitarra e várias frequências. Pretende-se que o resultado traduza "o som encontrado na poesia" de Torga. Todo o disco, editado exclusivamente em formato vinil, foi gravado e misturado por José Fortes, um mítico técnico de som da música portuguesa, cujo nome está associado a tantas obras de José Afonso, José Mário Branco, Fausto ou Sérgio Godinho.

A passividade perigosa

A passividade perigosa

Entrevistado pelo jornal El Pais, o filósofo e pedagogo espanhol José Antonio Marina denuncia o que considera o absoluto e dramático empobrecimento intelectual que decorre do mau uso do telemóvel. O grande pensador (com vasta obra editada, também em Portugal - e cito, apenas, "Ética para Náufragos", na Caminho, "O Medo", na Sextante, "A paixão do poder", na Esfera dos Livros) avisa para a "passividade perigosa" que está a ser criada pela tecnologia. Marina identifica uma "ideia destrutiva", inteiramente instalada. Essa ideia conduz a uma pergunta obtusa: "Para que vou aprender o que quer que seja se o posso encontrar na internet?". Ele insiste na ideia de que o uso dos telemóveis por alunos sob o efeito de uma síndrome compulsiva que os obriga a olhar o ecrã a cada três ou quatro minutos sem o que mergulham numa espécie de angústia, ajuda a criar dificuldades na leitura de um texto de dimensão mediana. "A tecnologia", considera José Antonio Marina, "está a tornar as coisas tão fáceis que se afigura quase insuportável ter de fazer um pequeno esforço. Queremos que uma aplicação resolva tudo. E isso conduz a uma passividade perigosa". Marina acaba de lançar em Espanha "A História Visual da Inteligência", um livro que percorre a história da Humanidade até à inteligência artificial. Um ponto central na reflexão do filósofo: o mundo da inteligência artificial maneja muito bem a parte cognitiva mas não a emocional, aquela que nos conduz à tomada de decisões.

Um sossegado silêncio

Um sossegado silêncio

Há mulheres antigas ocupando meia dúzia de cadeirões, em redor do esquife. E dois sobrinhos. Outro corpo é velado, também discretamente, na capela mortuária ao lado. Apercebendo-se da minha hesitação, à entrada, uma das mulheres pergunta se venho "para o senhor José". Respondo-lhe que sim. Os olhos da mulher antecipam a evidência de que, para o senhor José "é mais difícil regressar a casa: o caminho disfarçou, emudeceu seu rosto nos muros e nas grades". Há uma cruz na parede. Velas eléctricas acesas no topo de dois castiçais. Um sossegado silêncio. Ele está deitado, as mãos sobre o peito; no rosto, estampada, a serenidade com que deslizava pelas ruas. E a fantasia de um sorriso como se estivesse apurando, ao ouvido de Francisco Brines, a tradução definitiva do Ensaio de uma Despedida. O valenciano tem os 87 anos que ele já não cumprirá, porque "Novembro apagou nas buganvílias / seus nomes brancos, roxos, escarlates".