Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Viseu, de Agosto para Setembro

São duas figuras possantes, pesadas, vindas dos lados da Porta do Soar, movendo-se lentamente na praça de D. Duarte, em Viseu. A mulher vai um pouco adiante, o mapa da cidade na mão esquerda. Na esquina da rua Augusto Hilário, ajusta os óculos à máquina fotográfica, depois de decifrada a toponímia. "E se fossemos por aqui, até à Rua Direita?", propõe ela. O olhar do homem sobrevoa o cansaço e o desalento: "Esta é uma rua sem graça, ainda por cima a descer. O que é que vamos descobrir, nesta rua?". É a pergunta de quem nunca se sentou à mesa do Cortiço, nem demorou o olhar na guitarra inscrita no chão de lajes junto à casa onde nasceu o grande fadista, na porta 14 da antiga Rua Nova. O homem gastou a ração de fôlego do dia; se ousou entrar na Sé, não demorou o espanto ou a curiosidade diante do relicário com a mão do santo que foi amigo de Bernardo de Claraval. O homem, se pudesse sentava-se já ali, no chão, da praça, até que o mundo fosse plano. E eu com uma vontade enorme de me meter na conversa, talvez sugerindo que esperasse numa das esplanadas a deambulação da sua companheira. E que, quando ela regressasse à bela praça fossem de novo para os lados da Sé e descessem ao número 2 da Calçada Vigia e entrassem na porta da recuperada Casa da Calçada. No palacete do século XVIII onde vai surgir em breve o Museu Keil do Amaral pode ser vista, ainda, até 21 deste mês, a exposição "Público, 30 anos de fotografia", a mais importante mostra de fotojornalismo do ano em Portugal. Ali estão 60 fotografias que marcam momentos inesquecíveis do trabalho de alguns dos maiores repórteres fotográficos portugueses.

Sinais

O colar de arroz

O colar de arroz

Feitos de ouro e de prata, de pérolas, de conchas ou de penas, de fragmentos de obsidiana (como provam vestígios encontrados na antiga Mesopotâmia) ou de fina seda, adornando o colo das damas ou justos como gargantilhas, brilhando ao pescoço de reis ou como fantasia de pechisbeque em cachaço de pobre, os colares seduzem desde o ontem mais longínquo. O mais antigo colar de que há notícia foi encontrado numa caverna do sul de África: é formado por 41 conchas perfuradas há 75 mil anos. Ontem, um colar espantou os telespectadores que seguiam o programa "Encontro" na TV Globo. Inteiramente feito com bagos de arroz, o colar brilhou ao pescoço de Ana Maria Braga, uma das mais populares apresentadora da televisão brasileira que assim marcou posição a respeito do aumento do preço do arroz. O preço do arroz disparou no Brasil. O índice de preços apurado pela Associação Paulista de Supermercados confirma um aumento de mais de 25% no preço do arroz, desde janeiro. A coisa está feia porque a mistura de arroz com feijão não anda na boca do povo e nas canções do Chico apenas por desígnios do paladar regional. As prateleiras dos supermercados são indicadores preciosos para avaliar o equilíbrio, sempre precário, entre o gosto e o bolso. Não por acaso, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados veio sugerir aos consumidores que troquem o arroz pelo macarrão. É a nova maneira de aconselhar a ingestão de brioches.

As aves que voltam

As aves que voltam

No El Pais de ontem, Juan Cruz conversa ao telefone com Joan Manuel Serrat. Falam destes dias tocados pelo medo, das memórias do catalão contidas nas seiscentas páginas de "Algo Personal", a autobiografia publicada há uns anos e que adopta o título de uma das grandes canções de Serrat sobre os "homens de palha" que usam a água de colónia para "ocultar as obscuras intenções". A canção lembra-nos que, possivelmente, na sua aldeia, roubavam flores para oferecer às mães e davam de comer aos pombos. Na conversa de ontem, Serrat lembra-se dos dias da infância porque Juan Cruz recupera uma frase da autobiografia do cantor: "Quando era criança fazia frio e o mundo era triste". Falam do fechamento dos dias do grande medo que veio com o frio, Serrat confessa que se sentiu desorientado e que a sua desorientação deve ter sido semelhante à dos cientistas e à dos políticos. Foi da casa com árvores e ar livre que viu, ao longe, a "colmeia" da sua cidade. De lá viu "passar o tempo", viu como terminou o inverno e surgiu a primavera. E viu "aparecer os pássaros" que há muito não visitavam o seu jardim, "os pintassilgos e, até, um colibri".

Navios invisíveis

Navios invisíveis

A notícia pode ser dada como a onda procura o areal, da crista à rebentação. Navios invisíveis chineses provocam a morte de pescadores de barcos-fantasma nas águas da Coreia do Norte. Mas o mar é um poço sem fundo e a notícia pode, também, ser levada pelas ondas, conforme o vento sopre na superfície do mar. A notícia pode começar, afinal, nos destroços que dão à costa no mar do Japão. É aí que se contam as embarcações de madeira danificadas, em intrigante deriva, com os seus esqueletos nem sequer enigmáticos, mais de 150 só o ano passado, cerca de 500 nos últimos cinco anos.

Chuvas antigas, trovoadas secas

Chuvas antigas, trovoadas secas

Fez ontem cinquenta anos, o céu desabou sobre os Estados de Pernambuco e Alagoas. Na cidade de Caruaru, até os cangaceiros de barro e os caçadores de onça saídos das mãos do já falecido mestre Vitalino estremeceram nas vitrinas. Em Caruaru, tudo é em grande. A feira de Caruaru, cantada por Luis Gonzaga, é uma das maiores do mundo ao ar livre. A beleza do lugar é tamanha. Por alguma razão, Caruaru tem sido considerada "Princesa do Agreste" e capital do forró. Tudo é em grande, também a chuva. Também a seca.

Um repasto frugal

Um repasto frugal

Num dos "25 poemas da triste alegria", Carlos Drummond de Andrade convida um amigo, tomemos que convida o leitor, para a sua casa nova. O poema vai descrevendo as "paredes limpas", a mesa onde escreve e sobre a qual há "um ramo de rosas frescas". Consta que Mário de Andrade fez um reparo mais severo a um dos versos desse poema da fase juvenil do mineiro de Itabira, aquele em que Drummond aponta o banco em que se hão-de sentar, ele e o amigo, ele e o leitor, para um "repasto frugal". Mário de Andrade considerou "horrível" essa expressão paradoxal. Na verdade, o que será um repasto frugal?