Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Sinais

Do alto do Marão vemos o mar

Do alto do Marão vemos o mar

Encontro Paulo Pereira, o autarca de Baião, no restaurante da Pensão Borges, um dos santuários gastronómicos na concha da Aboboreira e do Marão. O confinamento não lhe deu mais tempo para grandes incursões de bicicleta nos trilhos que dão acesso a antiquíssimos dólmens, como o de Chã da Parada, lá onde Saramago anotou :"Debaixo desta pedras, o viajante retira-se do mundo". As serras estão bordadas de flores silvestres e atapetadas de um verde exuberante. O ar parece mais limpo, a tal ponto que parece ter desaparecido a névoa sobre as longínquas cidades. Talvez seja agora possível vislumbrar, como os mais antigos asseguram que acontecia nos dias límpidos de outrora, na linha do horizonte, as torres da refinaria de Matosinhos.

As livrarias

As livrarias

Ao longo dos últimos dias, percorri várias cidades do norte. Vagueei pelas ruas mais centrais, sentei-me em esplanadas, reentrei em restaurantes que há muito não visitava. Em todas as cidades por onde fui passando entrei em livrarias, mitigando a fome nunca saciada. Nos alfarrabistas da rua das Flores, no Porto, na Centésima Página, em Braga, na Traga-Mundos, em Vila Real, ou na livraria do Espaço Miguel Torga em São Martinho de Anta, reencontrei o perfume tão irresistível como aquele outro que me faz entrar em igrejas vazias.

Peixes voadores no olhar das palaiês

Peixes voadores no olhar das palaiês

Uma notícia divulgada ontem pela agência Ecclesia fala de um plano de emergência ensaiado em São Tomé e Príncipe por duas ONG, a portuguesa Oikos e a Marapa, uma parceira local criada há duas décadas por técnicos com formação na área da biologia marinha, do ecoturismo e da gestão dos recursos pesqueiros. O plano prevê a distribuição, nos próximos dias, de uma tonelada de peixe a famílias em situação de pobreza, duramente atingidas pela crise sanitária da Covid-19. Na verdade, muitas dessas famílias viram os já escassos rendimentos brutalmente reduzidos.

Do Penedo Durão ao Cabo da Roca

Do Penedo Durão ao Cabo da Roca

Desde o alto do Penedo Durão, o grande rochedo levantado na margem direita do Douro, na zona de Freixo de Espada à Cinta, lá onde pousam o falcão peregrino e o grifo, a andorinha das rochas e o melro-azul, até ao Cabo da Roca, calcorreando as serras da Marofa, do Açor, da Lousã, dos Candeeiros, de Montejunto, Duarte, o grande viajante, escritor e fotógrafo Duarte Belo, gastou os pés e as botas, durante quinze dias, entre o final de Abril e meados de Maio do ano passado. Ele definiu, nessa linha de montanhas, uma fronteira invisível, uma esquadria para a sua arte de caminhante. A longa peregrinação deste que é hoje, porventura, o português que melhor conhece o chão de Portugal, está contada, escrita e fotografada, suada e desenhada, no livro "Caminhar Oblíquo" que o Museu da Paisagem, da Escola Superior de Comunicação Social, acaba de publicar. Este livro é a mais funda respiração de um caminhante desenhando aquilo a que chama "um movimento sobre a Terra", uma "simulação das mais arcaicas caminhadas". Quando finalmente termina a viagem, exausto, diante do mar, ele tacteia uma ideia de infinito. Nesse momento, quando já poderia ensaiar respostas, ainda se, e nos, interroga sobre qual o sentido do viajar? Cada palavra pousada sobre o mapa que o acompanhou é um instante iniciático, a convocação do que chama "urgência de um tempo pessoal". As pegadas dele procuram o chão que ainda detém o segredo primordial. Onde monta a tenda não dormem turistas.