Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Comboios, iogurtes e outros desatinos

Grande parte do percurso entre Bombaim e Calcutá, na "Volta ao Mundo em 80 Dias", descontando a estranha etapa em que o protagonista se vê obrigado a alugar um elefante, é feita de comboio. Quando Phileas Fogg decide jantar na estação de Bombaim, é-lhe sugerida uma gibelotte de "coelho do país". "Este coelho não miou quando o mataram?", pergunta. O outro, que não. Fogg recorda-lhe que "outrora, na Índia, os gatos eram considerados animais sagrados. "Eram bons tempos", suspira o viajante. "Para os gatos, senhor?", pergunta o estalajadeiro. "E talvez também para os viajantes", responde o nosso herói. Acontece que o comboio da história há-de parar inesperadamente no meio de uma floresta de tamareiras e cajueiros. Por um motivo inultrapassável: faltava assentar 50 milhas de carris para completar a via até Calcutá. Esta força maior não é comparável às circunstâncias de um caso que fez, esta semana, notícia na France Presse: um maquinista paquistanês decidiu parar o comboio inesperadamente, longe da estação, para ir comprar um iogurte. Corre nas redes sociais um breve filme em que se vê o maquinista comprando o seu iogurte numa tenda à beira da linha, em lugar indeterminado, algures entre Lahore e Karachi. A acção negligente mereceu um comunicado do ministério paquistanês dos transportes, talvez porque permaneça ainda na memória de muitos o acidente ferroviário que provocou mais de 60 mortos, em Junho último. Mais riscos correu o poeta Manuel António Pina para fazer agulha poética com a palavra iogurte, não pondo em perigo, nesse formidável intento, a vida do leitor, passageiro de circunstância. A demanda do poeta é recordada na biografia do Pina recentemente publicada por Álvaro Magalhães. Procurai o poema que nos reconduz, comovidamente, ao leito de morte de outro poeta, Eugénio de Andrade. E deixai-vos ir, passai a outra carruagem, a outro poema, aquele em que Eugénio fala de comboios. É o poema em memória de Ruy Belo que tinha partido, "com esse sorriso onde a infância /tomava sempre o comboio para as férias grandes".

No poema "Trem de Ferro", de Manuel Bandeira, é o próprio comboio que apita e reclama "café com pão/ café com pão/ café com pão/ Virge Maria que foi isto maquinista?". O comboio exige do condutor "fogo na fornalha", pois precisa de "muita força/ muita força/ muita força". Nesse poema de "Estrela da Manhã", o comboio anota o que vê, na sua desabrida marcha, bicho, povo, ponte, poste, pasto, boi, boiada; a tudo e a todos manda que fujam, nunca se esquece da "pouca gente/ pouca gente/ pouca gente" que transporta. Seremos mais sensíveis ao apetite voraz do trem de ferro nascido no sertão do que ao desejo irrecusável de um maquinista, porventura extenuado, sedento de um iogurte algures adiante de Lahore?

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