Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Navios invisíveis

A notícia pode ser dada como a onda procura o areal, da crista à rebentação. Navios invisíveis chineses provocam a morte de pescadores de barcos-fantasma nas águas da Coreia do Norte. Mas o mar é um poço sem fundo e a notícia pode, também, ser levada pelas ondas, conforme o vento sopre na superfície do mar. A notícia pode começar, afinal, nos destroços que dão à costa no mar do Japão. É aí que se contam as embarcações de madeira danificadas, em intrigante deriva, com os seus esqueletos nem sequer enigmáticos, mais de 150 só o ano passado, cerca de 500 nos últimos cinco anos.

Os jornais contam o modo como os dados recolhidos por satélite, com recurso à inteligência artificial, permitiram esclarecer um dos enigmas até agora mais difíceis de desvendar pela polícia japonesa. Acreditava-se que pescadores da Coreia do Norte se atreviam cada vez para mais longe num mar cruel, procurando as lulas que as mudanças climáticas afastavam da costa. As precárias embarcações ficariam à deriva e os pescadores morreriam expostos aos elementos adversos. A investigação entretanto realizada por equipas científicas e pela Global Fishing Watch , uma organização especializada em rastrear actividades ilegais em alto mar, dá consistência à tese de que navios da frota industrial chinesa pescando ilegalmente em águas norte-coreanas vêm varrendo não apenas a população de lulas (praticamente em declínio), mas as precárias embarcações em que os pescadores locais se aventuram para escapar à fome.

Varridos pelos grandes "navios invisíveis", os pescadores norte-coreanos que perderam, entretanto, as boas graças do mar, são levados pelas correntes fortes e pelos tufões até à costa do Japão. Por vezes, os já destroçados barcos de madeira pousam no areal longínquo, transportando os seus esqueletos e, como conta uma reportagem recente da revista Época, com o cavername coberto de conchas e algas. Numa praia do outro lado do mundo, alguém encostará ao ouvido um búzio perdido. Pode ser que seja Alice Ruiz lançando às águas um dos seus haikai. "Mar bravio / a cada onda / novo silêncio". Lá, na costa onde vão morrer os barcos-fantasma, nenhum Bashô lançará ao vento, sequer, um breve lamento

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