Um dia de cada vez

O que é preciso é viver Um Dia de Cada Vez! O que é preciso é dizer Um Dia de Cada Vez. A jornalista Teresa Dias Mendes abre a janela da rádio e interroga a dura prova da passagem dos dias: os receios, os novos desafios, o modo como se resiste a um isolamento exigente.
Para ouvir de segunda a quinta-feira, depois das 19h00 e em TSF.PT

Porque conversar é caminhar com palavras

"Luísa, as histórias da minha vida"

Aos 80 anos, é um dos nomes grandes da literatura infanto-juvenil. A exposição na Biblioteca Nacional não chegou a ser inaugurada, mas o livro com a chancela da Porto Editora, tem a música das suas palavras. Luísa Ducla Soares celebra 50 anos de vida literária.

A voz doce, que surge do outro lado da linha, responde sem rodeios: "Na escrita escrevemos o que queremos, viver nem sempre vivemos o que nos apetece".

Luísa Ducla Soares não tem trava-línguas. Este era um ano de agenda cheia, "até ia ser muito cansativo", mas a pandemia confinou os passos em volta e a escritora viu-se sozinha em casa com o computador e a gata Margot. O computador é a voz que lhe diz Bom dia, todas as manhãs, a gata devolve-lhe o afecto, o simples gesto de uma festa, que por estes dias vai sendo muito. Falaremos das saudades dos 4 netos, em especial da mais nova, Leonor, de 8 anos, "a que mais gosta de livros como eu". A menina que começou a escrever aos 4 anos, e que aos 8 lhe recita por WhatsApp, o poema de Cecília Meireles, "Ou isto ou aquilo", adaptado à sua linguagem e ao mundo que a rodeia.

A mesma Leonor, que no livro hoje publicado dedica um poema à avó, de que não falámos. Era surpresa, partilhada (hoje já se pode saber) na antena da rádio durante a manhã, pela voz da Nônô.

Mais de centena e meia de livros, prosa e poesia, Luísa Ducla Soares nunca tinha escrito sobre ela, mas confessa que gostou, "porque os miúdos querem saber o que é um escritor, na realidade". Quem é, como vive, do que gosta, o que faz e o que fez também, na idade dos miúdos. A escritora conta pequenos episódios, o automóvel vermelho de pedais que pediu ao Pai Natal mas nunca teve, o berlinde que guarda na mesinha de cabeceira, oferecido por um menino da Casa Pia, os 13 candeeiros que ganhou no dia do casamento, as viagens de carro com o pai entre hospitais e visitas a doentes, o som dos poemas ditos pelo pai que a fez ouvir a música das palavras.

As ilustrações de Ângela Vieira desenham as histórias da vida de Luísa, que hoje continua a sentar-se em frente ao computador para falar com os jovens e com as crianças que não pode visitar. O trabalho foi a sua tábua de salvação "no naufrágio colectivo desta pandemia".

Acorda às 7, ouve a TSF, e ora escreve no computador, ora se senta para escrever poesia ao correr da pena sobre o papel. Ora lê, ora escreve, ora faz vídeos, ainda e sempre encantada com a música das palavras, a poesia dita, a magia dos afectos , que diz ser como uma varinha de condão , para despertar o gosto dos mais novos pela leitura e pela escrita. Foi esse o vírus que a infectou, muito antes destoutro que hoje nos confina.

Nos piores dias da pandemia, Luísa Ducla Soares confessa que chegou a sair de casa. Tem uma boa desculpa, "para não ficar sem bateria no carro", e lá ia ao volante pela cidade deserta, " uma cidade fantasma". Hoje de quando em vez, sai para tomar conta da neta, "sento-me num banquinho, de máscara, e fico a vê-la a andar de patins" . Não chega para matar a fome dos abraços e do convívio íntimo com a pequena Leonor, temendo até "perder a relação próxima que tem com a menina, que ela se esqueça.... faz-me uma falta terrível".

Entretanto, continua a cantar sempre que escreve poesia, e a escrever nas costas felpudas da gata, que se aninha ao colo da dona, a emendar textos no computador, a juntar as catadupas de ideias que a assaltam logo pela manhã. Está no "Inverno da vida",como escreve no livro agora publicado. Não é de todo, a sua estação preferida. O que nos leva a falar da imagem no espelho, "quem chega aos 80 anos não tem a ilusão de que a sua imagem é sedutora, pode ser afável e simpática, mas sofremos uma desilusão. Só olho ao espelho de manhã, quando me penteio. Não me atormenta, mas prefiro não pensar nisso".

Com sonhos e livros se constrói a sua vida. Obrigada, Luísa Ducla Soares.

Um dia de cada vez é um programa de Teresa Dias Mendes. Pode ser ouvido na íntegra, de segunda a quinta, depois das 19h00, na antena da TSF e em TSF.PT - Um dia de cada vez

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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