Tinha cinco anos quando o pai foi preso, em maio de 2003. Beatriz é a filha mais velha de Paulo Pedroso. Não tinha idade para perceber o que estava a acontecer. "Quando é que o pai volta?", perguntava ela à mãe, aos amigos mais próximos, aos familiares mais chegados, e perguntava ao pai, sempre que o visitava no Estabelecimento Prisional de Lisboa.
Paulo pedia à filha que lhe levasse desenhos, para lhe escrever histórias. "Era uma forma de comunicar que não refletia o horror daquilo tudo." Uma luz na escuridão.
"Quando é que o pai volta?", insistia a pequena Beatriz. Cento e trinta e cinco dias depois. Quatro meses e meio.
Mas nunca, nada mais, voltou a ser igual na vida de Paulo Pedroso. Os ciclos depressivos continuam e a vida flui.
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Passaram 18 anos sobre o processo Casa Pia. A política partidária ficou "irremediavelmente" perdida. Nem a condenação do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem - que, em junho 2018, condenou o Estado português ao pagamento de uma indemnização -, atenuou o julgamento público e o impacto deste processo na reputação do sociólogo.
Andou pela Roménia, Bulgária, Turquia, Angola, Timor-Leste, e, até 15 de fevereiro, ainda é o representante português no Conselho de Administração do Banco Mundial. A seguir, regressa em definitivo a Portugal. Já sem cartão de militante socialista, que entregou antes das eleições legislativas de outubro, e pronto para uma nova etapa - onde a vida académica e as aulas, que retoma no ISCTE, lhe vão encher os dias. "Dar aulas é o que mais gosto de fazer." As redes sociais ajudam a preencher o resto.
"Cada vez mais, sou um cidadão com opiniões, sempre minhas e frequentemente desalinhadas", é o que escreve na rede social Twitter, anunciando o regresso a Portugal. A filha reconhece o traço no desalinho do pai, "contra a corrente, mas sempre fundamentado, sempre com as palavras-chave que dão sentido ao discurso".
Paulo Pedroso saboreia os últimos momentos de conversa com a filha, que está de partida para a Suécia, onde vai agora fazer uma tese de mestrado sobre a purificação de proteínas e o desenvolvimento de uma nova vacina para a pneumonia. Desta vez, é ela que parte e ele que fica. Engenheira biológica, 22 anos, Beatriz Pedroso escolheu o campo das ciências da vida, e a Europa é a sua casa.
Hoje aqui e amanhã ali," sempre disse que queria trabalhar fora do país", conhecer o mundo, falar várias línguas. "É um adeus ou um até já?", pergunta-lhe o pai. Mas ela ainda não tem resposta para lhe dar.
"Uma Questão de ADN", um programa de Teresa Dias Mendes, com sonorização de José Guerreiro, passa esta quinta-feira às 19h, repete de madrugada a seguir à 1h ,e no domingo depois das 14h.

